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Flores  

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Tecido com estampas de flores, folhas ou buquês. Nos usamos, as nossas avós usavam... Mas quando é que estes tecidos surgiram?

Obviamente, há muito tempo. Estampas e ornamentos florais eram um enfeite comum desde sempre. O que variava era o estilo.

Flores de lótus no Egito Antigo, folhas de palmeira, na Grécia, vinhas estilizadas, tulipas e rosas, na Europa Renascentista... Guirlandas de flores nas barras, entrelaçamento de folhas e caules grandes, ou, pelo contrário, bem miúdos, cobrindo todo o tecido.

Podemos ver pequenos grupos de ornamentos florais espalhados pelo tecido nos quadros de Botticelli, por exemplo "Nascimento de Venus" - a minfa que estende o manto para Venus - também com florzinhas. Ou Flora, em "Primavera".


Até o século 18, ornamentos que cobriam quase todo o tecido eram mais populares. Por exemplo, na Inglaterra, país onde os jardins são parte inerente da cultura, justamente estes eram os favoritos. Mas não se limitavam a isso, variando de pequenos galhos até verdadeiros arbustos com flores bem grandes.


É curioso que, apesar da grande variedade de flores nos seus jardins, os ingleses preferiam tecidos com flores bastante estilizadas, e de algumas poucas espécies: cravos, tulipas, lírios, rosas e jacintos.


Nas primeiras dezenas do século 18, tudo muda. Vestidos volumosos, mas delicados, feitos de seda fina, exigem estampas não menos delicadas. O que pode ser melhor que pequenas flores?

As estampas tornam-se mais realistas, as flores, mais reconhecíveis. E, em algumas amostras de sedas, podemos contar mais de quarenta espécied de flores diferentes.


Se prestarmos atenção, podemos perceber o quão fino é o trabalho, todos estes buquês e folhagens. Como estão bastante espalhados pelo fundo claro, o tecido parece incrivelmente leve e festivo.

Anna Maria Garthwaite trabalhou na Inglaterra, na segunda metade do século 18. Ela desenhou um imenso número de estampas para tecidos de seda, e alguns dos seus desenhos sobreviveram, felizmente, até hoje. Se, até então, a moda inglesa era fortemente infuenciada pela França, agora, um estilo próprio havia se desenvolvido.


Além dos próprios ornamentos, desenvolvem-se também as tecnologias de sua crianção. Podem ser bordados ou tecidos, as vezes de forma extremamente complexa.


Mas o resultado é caro, e as mulheres menos abastadas também querem estar na moda. Então, surgem ornamentos estampados: basicamente, impressos ou pintados no tecido.


Tecidos pintados a mão surgiram na Europa no início do século 17, quando o comércio com a Índia começou a se desenvolver. E a arte de pintura em tecido havia sido desenvolvida ali por milênios. Tecidos leves e coloridos, que não desbotavam, se tornam extremamente populares.


Tecidos pintados a mão são caros, e as estampas começam a ser impressas com ajuda de tábuas entalhadas e pintadas. A impressão havia se desenvolvido o suficiente para permitir imitar, not tecidos de algodão, os elegantes desenhos dos tecidos de seda.


No início do século 19, estas técnicas se aperfeiçoam ainda mais, permitindo realizar em minutos o trabalho que levava horas. Além disso, se antes usavam-se corantes naturais, muito caros, novos materias passaram a ser usados, tornando tecidos estampados acessiveis a todos.


E as flores continuam sendo populares. Estampas florais são incorporadas, agora, ao dia a dia.



Não só nos vestidos... Homens usam coletes com flores estampadas ou bordadas, as flores tomam conta dos forros dos moveis, das roupas de cama e de mesa.


Tecidos floridos são tão acessíveis que a estampa de flores miudas cobrindo todo o tecido pasa a ser chamada de "camponesa".


Um outro nome para tecidos com estampas florais é "liberty". A empresa textil inglesa com este nome surge na metade do século 19.

 

Se, no final do século 19 e início do século 20, seus tecido florais não são muito requisitados, em 1930, as flores delicadas sobre o fundo claro voltam com tudo. A estampa tradicional de Liberty torna-se popular e reconhecível, correspondendo ao desejo de feminilidade e suavidade no vestuário e aparência.

Azul Claro  

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O céu pode ser muito diferente. Azul pálido ou mais forte. Turquesa ao anoitecer... Há muitos tons de azul claro, mas este é, antes de tudo, a cor do céu.


Ou a cor do segundo elemento, água.


Não é de se surpreender que ele entrou na história como a cor do divino, da eternidade, do ideal, do mistério. Azul claro é uma cor romântica e espiritual.

Tal como o verde, o azul é a cor da natureza.

Na Idade Média, o azul claro parecia meio apagado e sem graça em comparação com tons mais fortes que estavam na moda, mas aos poucos as pessoas começaram a valorizar a sua beleza. Roupas dos camponeses e capas dos reis, vestidos do dia-a-dia e de gala, brasões dos cavalheiros, uniformes - sempre há um cantinho para o azul claro.


No século 17, tornaram-se comuns quadros retratando senhoras não em trajes de gala, mas em vestidos caseiros. O corpo revelado mais do que o normal, e inúmeras dobras dos tecidos claros sublinhavam a beleza fora do tempo e da época.


Às vezes, elas representavam deusas da mitologia grega ou romana, outras, pastoras ou santas.


E, ao olhar para o retrato da nova amante do rei, cujos ombros estavam envoltos em um manto azul claro, cor da Virgem, ou que estava vestida de azul claro, cor da fidelidade, muitos refletiam sobre os pecados, erguidos tão alto que se tornavam um mérito, não uma falta...

Se bem que outras damas usavam o azul inocente merecidamente.


Homens também não faziam cara feia para essa cor. Casaco, calças, laços da cor do céu produziam um belo efeito visual. Ah, e as capas azuis dos mosqueteiros do rei?




O século galante, admirador de cores suaves e delicadas, foi o ápice do azul no vestuário. Cavalheiros e damas de azul, vestidos, coletes, forros, laços e fitas, chapéus...


Às vezes, vestiam-se de azul claro da cabeça aos pés, ou adicionavam somente uma gotinha de azul.


O início do século 19 foi o reino do branco, e depois de cores mais fortes, mas o azul claro não foi esquecido.


Nas décadas de 30 e 40, o azul era, ainda, uma das cores mais populares. Vestidos de gala, forros, capas...


O azul claro adicionava alegria ao preto, digamos "mantos de tafetá preto com forros de tecido azul ou rosa", ou talvez um chapéu de seda preta com uma flor ou um laço azuis.




Os anos 50 não ficavam para trás: "vestido azul claro de tecido chinês, com flores brancas miúdas, corpete a Luis XV. Na cabeça, um pequeno enfeite de fitas azuis claras também".


Na década de 1860, acompanhando o desenvolvimento de corantes artificiais, as roupas passaram a ter corres tão fortes que, de acordo com um historiador, eram "não só berrantes, mas brigavam desesperadamente entre si".

Podemos entendê-lo, quando se anda entre "vestidos roxos roxos demais", "púrpuras ou vermelhos, como papoulas, e verdes, cor da grama", a vista se cansa.




Mas havia uma cor que, por mais forte que fosse, não irritava. Azul claro. Por mais intenso que fosse, ainda assim é agradável para se olhar.


Emile Zola descreveu, em um dos romances, a Imperatriz Eugenie, famosa beldade que ditava a moda na França: "Usava um vestido simples de seda azul claro com túnica de rendas brancas. Ela caminhou lentamente ao longo da linha de senhoras, sorrindo e balançando graciosamente o pescoço nu, enfeitado somente com uma fita de veludo da cor do vestido com um coração de diamante".

Eis um vestido de corte "princesa", cuja proprietária estava vestida, certamente, de acordo com a última moda de 1878. Sem dúvida, afinal o modelo recebeu o seu nome em homenagem à jovem princesa de Wales, e o tecido azul claro com detalhes dourados também não deixa nada a desejar.


Alias, sobre combinações de cores.
 
Rosa e azul claro eram, no passado, uma combinação bastante comum. Hoje em dia é um pouco arriscado, mas numa época em que vestidos eram parecidos com sobremesas, era definitivamente bonito.


Emma, personagem do romance homônimo de Jane Austen, tentava provar que "uma fita azul, mesmo que seja de beleza celestial, jamais vai combinar com tecido amarelo". A jovem, sempre cheia de opiniões, errou dessa vez: como sempre, tudo depende dos tons.


Azul claro e bege é uma versão ainda mais elegante. 

 
No início do século 20, o azul claro, cor do ar e da água, transformava mulheres em fadas.

A bela Lantelme  

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(…) La belle Lanthelme où est-elle
Qu’on enterra dans ses dentelles
Et couverte de ses bijoux
Les yeux ouverts sous la voilette
Comme un bouquet de violettes
Un lait pâle peignant ses joues

Il en trembla comme une feuille
Le voleur brisant le cercueil
Qui vit tout cela devant lui
Parfums profonds qui s’exhalèrent
Ah comme encore elle a dû plaire
A ce visiteur de minuit (…)



Genevieve Lantelme é uma mulher-segredo.

Vamos começar pelo nome, se bem que aí já começam as complicações. O seu nome verdadeiro era Mathilde Fossey, Genevieve Lantelme era o pseudônimo que usava como atriz. Nos jornais, era Mlle Lantelme. Para os amigos, era Ginette.

 
Alias, havia várias atrizes com o sobrenome de Lantelme. A primeira, Marie, havia feito bastante sucesso, mas deixou o teatro em 1894 para casar-se. Genevieve representou de 1901 a 1911. Talvez ela admirasse a primeira Lantelme, ou quisesse pegar carona na popularidade dela?


A própria atriz escrevia o pseudônimo como Lantelme. Mas era mencionada como Lanthelme, Lanteline e mesmo Lantelline.


Mas enfim, Genevieve Lantelme nasceu em Paris, em 1882. Essa data foi indicada na revista Le Theatre, e o local, em The Theatre Magazine. Mas a última fonte indica como ano do nascimento o ano de 1883. Outras fontes mencionam 1882 ou 1883.


Ao certo, sabemos que Genevieve tinha uma mãe e duas irmãs mais novas. Obviamente, havia também o pai, mas nenhuma das fontes menciona-o. Depois da morte de Lantelme, uma das irmãs tentou a carreira teatral, mas não deu muito certo.

Sobre a vida antes de entrar para o teatro, só corriam boatos. Alguns diziam somente passado obscuro. Outros falavam sobre a mamãe cafetina que botou a filha para ralar desde cedo.


Mas enfim, em 31 de outubro de 1901, o nome dela apareceu pela primeira vez na revista Figaro. Ela debuta no teatro "Gymnase". O nome de Mlle Lantelme era o quarto contando do final. Mas é somente a primeira peça dela.

Em 3 de dezembro de 1901, Genevieve representa em uma outra peça. Dessa vez, a atriz é notada, e o crítico destaca em particular a grande naturalidade da jovem atriz, e seu dom para a comédia.


Depois, seguiram-se várias outras peças, a maioria comedias modernas. Se bem que no final da vida ela representa em algumas peças clássicas e históricas. Ginette começa a aparecer nos jornais.

Desde então, Lantelme também aparece em muitas revistas de moda. Na época, a profissão de modelo praticamente não existia, e quem "mostrava" as roupas eram, normalmente, atrizes. No final da vida, Lantelme é um ícone da moda. Típicos do estilo de Ginette são cabelos fartos, chapéus gigantes e pérolas.


Enfim, a moça está num começo de carreira excelente, mas deixa o palco e, depois de passar num concurso, entra no curso de atuação do Conservatório de Paris. Durante todo o ano de 1904, os jornais não a mencionam.

No ano seguinte, ela volta a atuar. Lantelme já possui alguma fama, mas a sua posição no mundo do teatro não é sólida, ela não possui nenhum contrato permanente. Ginette passa de teatro em teatro, obviamente aceitando todos os papeis que lhe oferecem. No início de 1906, num ensaio, ela conhece o autor da peça, um certo Alfred Edwards. Esta é a décima terceira peça em que Ginette atua.


Alfred Edwards nasceu em Constantinopla, em 1857, isto é, tinha 26 anos a mais que Ginette. Seu pai era inglês, e sua mãe era francesa. Alguns jornais insistiam em chamá-lo de judeu, talvez porque ele fosse absurdamente rico. Era muito alto e muito forte. Naquela época, com a moda do teatro, todos escreviam peças, e Edwards também brincava de autor. Além disso, ele era mulherengo. Ele havia "roubado" a mulher dele, Misia, de um conhecido, mas já estava um tanto de saco cheio dela, e seu encontro com Lantelme aconteceu num momento propício. Edwards não pretendia divorciar-se de Misia e casar-se com ela, o divorcio custar-lhe-ia uma fortuna. Ele se limitou a cobrir Ginette de presentes e ofereceu-se para alugar-lhe um apartamento.


No final do ano, Lantelme conseguiu um contrato permanente com um teatro, aberto por uma atriz mais bem sucedida. Inicialmente, tudo ia bem, mas a dona do teatro ficava sempre com os papeis principais. Um ano depois, Ginette não agüentou e fugiu do teatro. Contudo, foi processada por quebra de contrato e obrigada a pagar uma soma imensa, que ela poderia conseguir somente com Edwards. Assim, ela ficou totalmente dependente dele.

Há aqui um ponto curioso: alguns artigos mencionam Edwards como verdadeiro proprietário do teatro. Então porque Lantelme não recebia papeis de destaque? Porque foi processada? Ou era um meio de puxar as rédeas da atriz?


Mas, em breve, a sorte sorri para ela, e ela consegue um novo emprego em Paris. Suas fotos aparecem nas capas de todos os jornais. O rei Edward VII da Inglaterra vai ao teatro especialmente para vê-la representar.

Em 1910, ela finalmente se casa com Edwards. Curiosamente, o casamento ocorreu na província, e as testemunhas foram alguns transeuntes. É possível, que Edwards vingue assim a sua raiva: a ex-mulher levou-lhe uma pensão de 48000 francos por ano. Naquele tempo, um automóvel, considerado artigo de luxo, poderia ser comprado por dois mil francos.


Em 1 de julho de 1911, Lantelme sai ao palco pela última vez. Poucos dias depois, ela vai viajar no iate do marido, e falece em 25 de julho.

Enfim, temos o iate a vapor "Amada", construído em Amsterdã especialmente para navegação fluvial, noite de 24 para 25 de julho, várias testemunhas e uma atriz desaparecida.


Em poucas palavras, o quadro é o seguinte. Dia 24, o iate cruzou a fronteira da Alemanha. Depois todos comeram, beberam, cantaram e se divertiram.

À noite, começou a chover, e todos foram para os seus quartos. Edwards, no quarto vizinho ao da esposa, ouviu um gritinho, foi até lá, bateu na porta. Não havia resposta. Preocupado, ele arrombou a porta e viu que a janela está aberta e Ginette desapareceu. Seria natural supor que ela caiu pela janela.


O problema é que a janela era bem alta, e era impossível cair por ela, mesmo se o iate balançasse muito. Supuseram que Ginette ficou com calor (realmente, estava muito quente), e ela subiu num banco para respirar ar fresco. Talvez ela tenha ficado com tontura, ou o iate balançou, ela não conseguiu se segurar e caiu na água. Ela não sabia nadar, e uma queda nas águas do Reno significava morte para ela.

Enfim, havia explicações demais e investigação de menos. Edwards recusava-se a falar do ocorrido.

 
Lantelme foi enterrada no cemitério Pere Lachaise. O viúvo ordenou enterrar a mulher com as jóias favoritas dela, e também com um retrato dele. Um amigo de longa data desmaiou no enterro.

Terminou o drama, começou o circo. A família da falecida lembrou-se que Edwards não havia providenciado um contrato de casamento adequado, e pediu a sua parte da herança, 700000 francos. Além do dinheiro, a família de Ginette exigiu os pertences pessoais dela - não para ficar com eles, como logo se descobriu, pois os objetos foram imediatamente leiloados.


Em dezembro de 1911, ladrões arrombaram o caixão de Lantelme em busca de jóias, mas por uma combinação de circunstâncias não conseguiram roubá-las. Ao saber sobre o ocorrido, Edwards mandou arrumar o túmulo, e as jóias também passaram para as mãos da família de Lantelme. Em 1920, elas também seriam leiloadas, e, curiosamente, aquilo que foi leiloado não correspondia à descrição feita por um repórter pedante nove anos antes.

Em 1912, um jornal acusou Edwards do assassinato da esposa.

Motivo? Ele morria de ciúmes dela, e ela nem pensava em ser fiel. Quando ela morreu, no quarto dela foi encontrada a carta para um amante. Este era Andre Brule, também ator, extremamente popular na época.


Que janela que nada. Ela não caiu. Não houve acidente algum! O casal brigou, ele a matou, simples! Provavelmente, asfixiou-a e jogou o corpo na água. E quando começou a investigação, recorreu a amigos poderosos para abafar o caso.

Edwards processou o jornal. Foi feita uma nova investigação, Edwards foi inocentado, contudo a multa que o jornal teve que pagar foi ridiculamente pequena.

Edwards morreu em 1914 Apesar da reputação, foi assediado pelas mulheres até a morte. A sortuda que ficou com a herança foi a sua última amante, Colonna Romano, muito parecida com Ginette. Depois da morte dele, houve uma nova rodada de processos com participação da família de Lantelme, e de Misia.

Enfim, nada jamais foi provado.

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