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Masturbação na Era Vitoriana  

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Era uma vez um jovem, aprendiz de um artesão qualquer. Mas, aos 17 anos, ele foi acometido por um mal terrível, e a sua saúde começou a piorar. Tinha acessos da terrível doença diariamente, várias vezes. Tinha convulsões, o pescoço ficava tenso e inchado. Um ano mais tarde, tinha dificuldades para ingerir alimentos, e passava até 15 horas seguidas sem comer. Por causa da doença, deixou de trabalhar e ficou reduzido a miséria. Agora, ele parecia um zumbi. O seu corpo secou, com exceção dos pés, que incharam. O nariz sangrava, tinha problemas de vista e pulso acelerado. Além disso, ele começou a urinar na cama. Depois de passar várias semanas inconsciente, ele morreu.

Então, que doença que esse coitado pegou? Será que é comum? Tem tratamento?
O conteudo a seguir não é recomendado para pessas que ainda têm pesadelos com os absorventes de crochê, e também para crianças e mulheres grávidas. Saiba mais!

O grande amigo branco  

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Infelizmente, alguns temas não costumam ser abordados. Sem contar que as pessoas normalmente não descrevem as suas ações diárias. Mas ainda assim, sabemos algumas coisas. Pelo menos, os nossos antepassados não andavam cagando pelos cantos.

Enfim, é um post complicado, menores, pessoas nervosas e inocentes, evitem. Se o conteúdo abaixo os perturbou, a culpa não é minha.

Na idade média, os dejetos eram simplesmente despejados na rua se a pessoa fazia as necessidades num urinol. Ou poderia correr até a rua mesmo. Nas cidades, surgiram latrinas “embutidas” nas muralhas, de modo que os produtos do esforço coletivo dos seus habitantes escorressem para fora. De qualquer forma, apesar de todos os esforços, as cidades eram completamente imundas.

O exemplo disso é uma lei parisiense do século 11, proibindo aos cidadãos despejar o conteúdo dos urinóis dos andares superiores das casas para não incomodar os transeuntes. Obviamente, não era cumprida. O problema não estava restrito aos simples. Assim, um viajante descreve o Louvre, em 1670, de forma bem pouco apetitosa, apontando para a grande quantidade de montinhos. Vocês sabem do que, né. Era de se esperar, pois o palácio não tinha um único banheiro. Muitas vezes, o rei e sua corte simplesmente subiam nos parapeitos das janelas, colocavam as bundas para fora e...

Não era raro, ao inquirir, em uma hospedaria, onde ficava o banheiro, receber a resposta: “Em qualquer lugar que lhe for cômodo!”

 
Os urinóis, e o método de uso deles, pouco mudaram nos últimos 200 anos. Mas, no passado, eram bem mais difundidos. Cá entre nos, quem nunca parou um instante para pensar como as mulheres faziam para ir ao banheiro com aquelas saias gigantes? Mas a criatividade humana não tem limites. No século 16, havia na França um certo Bourdaloue, pastor. Ele poderia falar por horas e horas a fio. Para não se distrair dos seus sermões, as senhoras levavam com elas os potinhos “bourdaloue”, de formato bem anatômico. As criadas enfiavam-nos por baixo das saias das senhoras. Levando em conta que as roupas de baixo da época não tinham uma costura entre as pernas (e continuaram sem até quase o final do século 18), era um procedimento bem simples e prático.

 Séc. 16, modelo masculino.

Mas enfim, os urinóis de todas as formas e cores eram bem populares, afinal ninguém queria ficar correndo para lá e para cá na hora do aperto.


Hoje em dia, muitos dos “bourdaloue” são usados para servir comida. Enfim, observe as ilustrações e, da próxima vez que for visitar alguém metido a besta que se gaba das porcelanas herdadas da tataravó, denuncie o engano em pleno almoço. Mas tudo bem, é um engano perdoável, são mesmo parecidos.

 Se você ver um negócio assim em cima da mesa...
 
O urinol tinha uma “alça” para carregá-lo, e uma tampa. Ele normalmente ficava guardado sob a cama e, de manhã, a criada que limpava o quarto era encarregada de esvaziá-lo.

 Urinois eram dados de presente e evinham com inscrições encorajadoras.

Já em 1820 – ou mesmo antes – as pessoas sabiam que não é legal fazer xixi no urinol do amigo. Principalmente se o amigo tivesse qualquer doença que poderia ser confundida com sífilis.

No século 17, eram bastante populares as poltronas de retiro, mas acabaram caindo em desuso antes da era vitoriana. Ainda assim, posto algumas imagens, conheço várias pessoas que lamentam ter que se afastar do computador por um instante que seja, e espero que curtam a idéia.


Finalmente, também surgiram recintos especiais para esse fim, muitos deles conectados diretamente a fossas. Ficavam, no início, próximas a entrada. Assim, um visitante poderia, logo ao chegar, aliviar-se e se arrumar sem perturbar os moradores da casa. Mas o hall de entrada deveria feder bastante. Esta instalação poderia também ficar fora de casa, excelente no que diz respeito a higiene, mas bastante incomodo no inverno.

De resto, era bastante natural fazer as suas necessidades em qualquer espaço público não muito movimentado. De modo que você não deveria se surpreender ou ficar muito ultrajado se encontrasse alguma pessoa agachada no portão da sua casa.

Privadas semelhantes às de hoje começaram a surgir na metade do século 18. Antes disso, o pessoal valia-se dos métodos descritos acima. Mas mesmo depois da sua invenção, as privadas eram muitas vezes instalados em cubículos fora de casa, ou, então, a instalação moderna era somente para o uso dos donos da casa, e os criados deveriam se virar.

Aí, os urinóis tiveram que se aposentar. 


Na verdade, a primeira privada foi inventada em 1596, mas foi desaprovada pela rainha Elisabeth I e a moda não pegou.


O surgimento das privadas do tipo moderno foi favorecido pelo aperfeiçoamento das válvulas e dos sistemas de descarga. As primeiras provadas eram bem pouco eficientes justamente por causa desses dois fatores. Vamos observar o esquema do primeiro modelo: na parte inferior, a água era acumulada em um reservatório de cobre, chamado de D-trap, devido a seu formato. O contêiner com excrementos virava, despejando-os no reservatório, e depois era necessário jogar bastante água, para que esta leve tudo cano abaixo. O grande problema aí era o gasto de água e, como o consumo desta já era controlado, o fedor era insuportável. Assim, o banheiro ficava no canto mais remoto da casa, para não incomodar os moradores. 


Depois, foi desenvolvida a privada com sifão (a bagaça em forma de S), bem mais eficiente nesse sentido. Em 1860-70, a empresa de Thomas Crapper era a principal fornecedora de privadas (mas o verbo to crap, cagar, surgiu bem antes disso, e não tem nenhuma relação com este respeitável senhor).

 
Sr. Crapper.

As privadas finalmente livraram-se do mau cheiro, e começaram a ganhar espaço. O único incômodo era o barulho da descarga, tão alto que poderia ser ouvido nos cômodos vizinhos, perturbando os vitorianos, obcecados com decência. De alguma forma, isso me faz lembrar as mulheres japonesas, que apertam a descarga durante todo o tempo em que fazem as suas necessidades, para que ninguém ouça o barulho do xixi.



Inicialmente, as privadas eram acomodadas em caixas de madeira. Mas, a partir do final da década de 70, começou a moda das cores e formas, do estilo império ao renascentista, com ricas decorações e pinturas. Mas, apesar da aparência dos vasos ser impressionante, para se limpar, era usado qualquer papel que estivesse a mão. Jornais, envelopes, pacotes de papel eram cortados, presos a um barbante e pendurados no banheiro.
 
Além de banheiros privativos, disseminaram-se os públicos. Por exemplo, durante a Exposição de 1851, os visitantes poderiam utilizar banheiros com privadas modernas – conferidas por quase um milhão de pessoas. Banheiros femininos eram mais raros que masculinos, temia-se que eles pudessem se tornar pontos de reunião de prostitutas.



O piano de vidro  

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Alexandra da Baviera, prima de Sisi. Alexandra acreditava que havia engolido um piano de vidro, e deveria, portanto, tomar cuidado, já que se o piano quebrasse, cortaria-a por dentro. Isso restringiu muito as suas atividades, desde a infância: Alexandra acreditava que o incidente ocorreu quando era criança, e jamais deixou de acreditar nisso.

Espartilhos  

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Não posso deixar de citar Gwen Raverat ao continuar sobre o tema dos espartilhos:

As senhoras nunca pareciam estar à vontade... Pois seus vestidos eram sempre feitos apertados demais, e os corpetes enrugavam horizontalmente por causa da tensão, e seus espartilhos apareciam como uma borda afiada no meio das costas delas. E apesar das barbatanas, eles poderiam formar saliência abaixo da cintura, na frente; pois, pobres coitadinhas, elas eram nada mais que humanas, apesar de tudo, e elas precisavam expandir para algum lugar.

Agora, Moriel vai compartilhar a sua experiência de tight-lacing.
Antes de tudo, a recomendação é usar espartilho sob medida. Ele é muito confortável, e quando você o coloca, se sente como se estivesse numa poltrona: relaxa as costas, não precisa contrair a barriga, nem nada, tudo fica retinho e no lugar por conta própria. Não incomoda para se movimentar, não sai do lugar, não deixa os seios "saltar" do espartilho. Para usar um espartilho diariamente, a mulher tem que ser muito sortuda para achar um pronto que se ajuste bem no seu corpo (principalmente se você for magra e não tiver uma boa quantidade de silicone nos seios).

Se você tiver qualquer problema respiratório, ou estudar/trabalhar num local que tenha muitas escadas, ou tenha que realizar atividades físicas intensas, pense duas vezes. Ou mais. O espartilho realmente faz diferença nessas horas.

Tive alguns problemas digestivos, mas foi mais por falta de auto-controle meu. Enquanto estava de espartilho, a quantidade de comida que entrava era bastante limitada. Bom pra emagrecer, né? Depois de alguns dias passando fome, comecei comer de pouquinho em pouquinho, mas o tempo todo. Além disso, tirava o espartilho à noite, deitava na cama, ficava lá uns 30 minutos e partia galopando em direção à geladeira. De alguma forma, este regime alimentar acabou não me fazendo bem.

Banheiro. Aperta um pouco a bexiga, e talvez você tenha que visitar o quarto de reflexões um pouco mais frequentemente. Ou beber menos, o que é bom, afinal, você não pode ingerir muitas coisas de uma vez e nem suar.

É bom usar alguma coisa por baixo do espartilho. Suor mais espartilho justo não é uma combinação boa para a pele, a menos que queira ter calos em lugares inusitados.

Sobre deslocamento dos órgãos, afinamento definitivo da cintura, deformações e todos os horrores, nada posso dizer. Acho que precisaria usar um espartilho por bem mais tempo do que eu usei.

Historiadoras Valerie Steele e Lynn Kutsh fizeram uma pesquisa sobre as consequências negativas do uso do espartilho, estudando exemplos de espartilhos antigos e mulheres da atualidade que usam espartilho regularmente. Em particular, tentaram descobrir o quão seriamente o espartilho afeta o volume dos pulmãos. Experiências similares foram feitas em 1998, quando voluntários usaram espartilhos do século 19 que diminuíam a sua cintura em 7,5 cm. Foi observado que o volume pulmonar diminuiu em média em 9%, chegando em alguns casos a 29%. De acordo com este estudo, espartilhos vitorianos realmente dificultavam a respiração e poderiam leva a desmaios, em particular durante atividades físicas intensas, por exemplo num baile.

Contrariamente a uma crença bastante popular, espartilhos não causam desvios de coluna, muito pelo contrário, e, em alguns casos, podem aliviar a dor nas costas. Ainda assim, uso prolongado do espartilho resulta em enfraquecimento dos músculos dorsais e abdominais. Além disso, espartilhos podem provocar deformação de costelas, caso sejam usados desde a infância. Mas no século 19, seu uso normalmente iniciava-se após 10-12 anos. Apesar do uso de espartilho poder causar grande desconforto, isso não levava a deformações permanentes: mesmo apertando as costelas, depois da remoção do espartilho, elas voltavam ao lugar. Se bem que no século 18 algumas mulheres dormiam de espartilho, e a prática persistiu no século 19.

Sobre o desconforto, novamente deixamos falar Gwen Raverat:
Nos sabíamos que era quase impossível - estavamos flaqueados por todos os lados e em desvantagem numérica - mas nos rebelamos-nos contra espartilhos. Margaret diz que a primeira vez que ela foi colocada dentro de um - quando ela tinha por volta de treze - ela correu dando voltas pelo quarto gritando de raiva. Eu não fiz isso. Eu simplesmente sai e o tirei; aguentei de mau humor a bronca que se seguiu, quando a minha condição de casca mole foi descoberta; o espartilho foi recolocado à força; e, o mais rapidamente possivel, sai e o tirei novamente. Uma das minhas governantas costumava chorar pela minha iniquidade, a este respeito. Eu tinha má figura, e para mim eles eram verdadeiros instrumentos de tortura; eles preveniam-me de respirar, e cavavam buracos profundos nas minhas partes mais macias de cada lado. Tenho certeza de que qualquer tormento pudesse ser pior pra mim.

Fígado cortado em dois é mais uma historinha de horror famosa. Realmente, por causa de um espartilho bem apertado, o fígado desce e alonga-se. Se apertar muito forte, é possível realmente causar danos. Ainda assim, de acordo com Valerie Steele, a maioria de notificações sobre deformações do fígado no século 19 está ligado não ao uso de espartilhos, mas a doenças como hepatite e cirrose. Boatos de que tight-lacing pode causar úlcera não foram confirmados durante o estudo. Contudo, descobriu-se que o espartilho pode causar prisão do ventre ou pressionar a beixiga, causando problemas urinários.

As fãs de espartilhos muitas vezes tinham problemas uterinos, mas também sob certas condições. Inúmeras mulheres, no século 19, sofriam de prolapso uterino, muitas vezes causado por numerosas gestações. Por causa da pressão sobre a parte inferior da barriga, os espartilhos agravavam esta condição. Principal tratamento contra prolapso uterino eram os pessários, uma espécie de rolhas de borracha colocadas na vagina para manter o útero no lugar. É interessante o fato de que as propagandas da época muitas vezes mostravam os pessários acoplados aos espartilhos. Mulheres que usavam espartilhos durante a gravidez ou depois do parto corriam sérios riscos. Por exemplo, vejamos o que escreve Guy de Maupassant:
Eu já havia esquecido essa história, mas há alguns dias, em uma das praias da moda, vi uma graciosa, encantadora e sedutora senhora, que usufruía de amor e respeito dos homens que a cercavam.
Eu andava pela praia de braço com um amigo, médico neste resort. Em breve, vi a babá e três crianças que brincavam na areia. Um par de pequenas muletas, largadas do lado, causaram-me um sentimento lacinante de compaixão. E então eu notei que estas três pequenas criaturas são monstruosas, corcundas, tortas, horrendas.
O médico disse-me:
- Estes são os filhos da encantadora senhora que você acabou de encontrar.
Profunda compaixão por ela e por seus filhos apossou-se do meu coração. Exclamei:
- Pobre mãe! E ela ainda pode rir!
Meu amigo continuou:
- Não tenha pena dela, meu querido. É preciso ter pena dos seus pobres pequenos. Eis as consequências das cinturas apertadas, que continuam finas até o último dia. Estas aberrações são produto do espartilho. Ela sabe que arrisca a vida assim. Mas ela não se importa, basta que ela seja bela, basta que a amem!

Existiam, é claro, espartilhos especiais para este período, que deveriam alargar-se a medida que o feto crescia, mas eles pouco se distinguiam dos seus irmãos mais tradicionais. O uso de espartilhos durante a gravidez levava a abortos ou problemas no parto. Não é de se surpreender que espartilhos muito apertados eram usados para induzir aborto.

Todas essas consequências do uso do espartilho podem levar-nos a concluir que o espartilho é um imenso mal, e todos aqueles que o usam estão condenados a uma morte dolorosa. Na verdade, é preciso separar as moscas da sopa. O uso do espartilho por si só não mata ninguém, desde que a pessoa modere e não se aperte até os olhos pularem das órbitas. Afinal, para algumas mulheres, 55 cm de cintura é um sonho inalcansável, enquanto para outras são só alguns centímetros a menos em relação ao natural. Afinal, o quanto as mulheres vitorianas diminuíam as suas sinturas?

Na Inglaterra, no século 19, corriam boatos sobre mulheres que não conseguem viver sem espartilho, usam esta peça de roupa 24 horas por dia, e apertam a cintura até 30 cm. Estas histórias normalmente começavam com palavras "Não, não sou assim, mas uma vez ouvi sobre a fulana, e ela..." Além disso, dizia-se que existiam colégios especiais, cujo objetivo principal é o afinamento das cinturas das alunas. Ou mesmo alunos. Os funcionários destas instituições obrigam os adolescentes a dormir em espartilhos apertados, diminuindo gradativamente as suas cinturas até os almejados 30 - 35 cm.

A principal fonte de informação sobre esses locais é a Englishwoman's Domestic Magazine, que recebeu, entre 1867 e 1874, mais de 150 cartas contando sobre as regras das tight-lacing schools e elogiando espartilhos. Assim, uma tal de Norah, em 1867, contou sobre a sua permanência em "uma escola em Londres para senhoritas" onde "a cintura das alunas era afinada em 3 cm todo mês". Quando ela saiu desta mesma escola, tinha, segundo ela mesma, 33 cm de cintura. Um traço distintivo das cartas cujos autores descrevem vividamente as alegrias do tight-lacing era o vocabulário. Palavras como "disciplina", "coerção", "sofrimento", "tortura" e "submissão" cobriam as páginas. Enquanto isso, as propagandas desenhavam uma imagem mais positiva: "prazer", "graça", "esplendor", "conforto"...

Outras revistas também recebiam correspondências similares. Assim, em 1863, um tal de Fanny escreveu para a revista The Wueen sobre como, aos 16 anos, foi enviado a um pensionato, onde os meninos colocavam espartilhos, cujos laços eram amarrados por duas criadas robustas, toda manhã. Outro jovem comunicou que, ao chegar no pensionato, foi imediatamente colocado dentro de um rígido espartilho, cujos laços depois foram presos por um cadeado, cuja chave foi, por sua vez, recolhida pela diretora, "bela viúva de 24 anos". Na sua carta para Society (1899), uma certa "Cintura de Vespa" contou de como revoltou-se contra o espartilho na infância. Mas se a governanta de Gwen somente chorava, a governanta francesa da "Cintura de Vespa" era uma pessoa bem mais decidida: "Depois, seguiu-se a punição, que me fez obedecer e fez-me bem. Me penduraram no teto pelos pulsos, e os pés, em botas de salto alto, foram amarrados em argolas presas no chão. Nesta posição, espancaram-me cruelmente, o que me causou forte dor, mas não deixou marcas, pois eu estava espartilhada. Antes de me soltar, a governanta apertou a minha cintura até 38 cm".

Sem dúvida, os ingleses do século 19 não tinham muita cerimônia com seus filhos, mas essas historinhas fazem pensar é em fantasias eróticas. Espancamentos, dominação feminina, sapatos de salto alto, espartilhos, amarras - enfim, tudo que um sado-masoquista iniciante poderia vir a precisar. Apesar de muitos historiadores utilizarem este tipo de material para ilustrar os horrores do espartilho, a mesma Valerie Steele está certa de que em sua maioria, autores dessas cartas tinham, simplesmente, um fetishe com espartilhos. É possível que tenham realmente vivido tudo o que descreviam, incluindo a transformação em ampulheta, mas devemos analisar criticamente o seu testemunho. Sua experiência difere significativamente da experiência diária da dona de casa vitoriana.

As ilustrações em revistas de moda e caricaturas também não dão uma resposta confiável para o grau de aperto que as senhoras vitorianas passavam. Nem mesmo as fotografias daquela época merecem confiança, já que poderiam ser retocadas para adequar a cintura feminina ao ideal inatingível. Trabalho com espartilhos que sobreviveram até os nossos dias pode esclarecer um pouco essa questão, apesar de não dar, também, uma resposta definitiva. Por exemplo, ao estudar 197 da coleção de Symington do museu de Leicester, descobriu-se que somente um deles afinava a cintura até 46 cm. Mais 11 - até 48 cm. A maioria dos exemplares afinavam a cintura até 50 - 66 cm.

Mas a circunferência da cintura não é um valor absoluto. Por exemplo, um exemplar de Nova Yorque afinava a cintura até 45 cm, com 81 cm de peito e 63 cm de quadril. Obviamente, este espartilho pertencia a uma pessoa bem magrinha. A grande maioria dos espartilhos produzidos entre 1870 e 1880 tinham os seguintes tamanhos: 76-50-76, 83-53-81, 81-56-83, 76-58-78. De acordo com a propaganda da época, tamanhos padrões eram de 45 e 76 cm de cintura.

Aborto na Era Vitoriana  

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Desde a Idade Média, havia uma grande diversidade de métodos de aborto na Europa, incluindo exercícios excessivos, golpes violentos na barriga, cintos extremamente apertados, além de várias beberragens de eficacia variada. Assim, De viribus herbarum, do século 11, contem, entre outras coisas, uma lista de ervas que causam aborto, por exemplo a sálvia. Ainda no final do século 19 (King´s American Dispensatory, 1898), recomendava-se uma mistura de fermento e poejo (uma espécie de hortelã).

Só para citar alguns exemplos, claro, mas é fácil perceber que as mulheres do passado estavam bastante anciosas para interromper uma gravidez indesejada. Dada a mortalidade materna e a miséria de muitas famílias, isso é bastante compreensível.

Isto é, dada a mortalidade materna e a ignorância. Afinal, mesmo no início do século 20, aproximadamente um em seis abortos resultava em morte da mulher (se considerarmos os aborteiros de fundo de quintal e as suas vítimas, esta proporção certamente piora).

Gravidez e Parto na Era Vitoriana  

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Ter filhos era algo perigoso e complicado para a mulher, e nem todas elas, em particular as das classes menos favorecidas, compartilhavam a visão teórica de que mulheres deveriam “tomar conta da casa, satisfazer os desejos dos homens e ter filhos”.

Quais possam ser os sentimentos de uma jovem esposa quando ela suspeita pela primeira vez que será mãe, eu dificilmente posso imaginar. Se ela pensar corretamente, agradecerá a Deus pois não há ofício mais elevado e sagrado que o de uma mãe. É realmente maravilhoso quão sedo a jovem mãe, se ela for uma verdadeira mulher, descobre ser fácil cumprir as obrigações dela para com o bebê.

A maior parte das mulheres sabia, a partir da experiência prática, que isso estava longe de ser verdade.

Para começar, a gravidez era frequentemente uma surpresa para as mulheres da era vitoriana. As mães tinham vergonha de explicar para as filhas alguns detalhes íntimos, e a ignorância nessas questões era assustadora. Às vezes, a mulher compreendia que não era aquele prato favorito dela que a fazia engordar somente nos últimos meses da gestação. “Cerca de um mês antes de o bebê nascer, eu me lembro de perguntar a minha tia por onde o bebê sairia. Ela ficou estupefata e não me explicou muita coisa”.

Na melhor das hipóteses, a vergonha revestia-se de eufemismos. Por exemplo, a autora de um livro sobre este tema utilizou a seguinte descrição: “chega um momento na vida de toda lady em que ela deve afastar-se da sociedade e ouvir a si mesma”.

Era considerado desfavorável se um cavalheiro a visse num determinado momento da vida. Supunha-se que mesmo o pai não tinha idéia do que estava acontecendo em sua casa. Ele não perguntava por que a mãe está com náuseas e ela muitas vezes foi vista com lágrimas nos olhos.

Como nada se falava sobre o estado da mulher, também não se julgava necessário aliviar de alguma forma a vida dela. As mais pobres continuavam trabalhando até o parto, e mesmo nas casas de classe média esperava-se que a mulher irá cumprir as suas funções de dona de casa, tal como ela fazia anteriormente, sem quaisquer descontos.

Entre as classes mais abastadas, porém, o quadro era totalmente diferente. Àquelas que poderiam permitir-se ficarem ociosas durante a gravidez, dizia-se que se movimentar demais faz mal a saúde. As senhoras preferiam não se mostrar à sociedade, permanecendo afastadas durante alguns meses, e preparando as roupas para o bebê e para si mesmas.

O parto por si só era algo muito mais arriscado do que hoje em dia. Em média, na Grã-Bretanha, uma gravidez em 200 levava a morte da mãe no século 19. Para fins de comparação, atualmente, a taxa de média de mortalidade materna dos países desenvolvidos é de uma morte a cada 5000 gestações.

O parto poderia ser acompanhado tanto por uma parteira quanto por um médico – na primeira metade do século 19, não se requeria nenhuma licença para essa atividade. Na metade do século, todas as mulheres da casa estavam presentes durante o parto: irmãs, tias, criadas corriam pra cima e pra baixo pela escada com jarras de água fervida. Mas depois de 1860, quando os médicos e as enfermeiras ganham prioridade para permanecer ao lado das parturientes, mesmo as parentes mais próximas são expulsas do quarto.

Depois do nascimento da criança, a mãe era cercada de cuidados, e não permitiam que levantasse da cama durante nove dias. Era alimentada de colherzinha, não sendo recomendado nem mesmo sentar-se na cama. Todas as janelas estavam fechadas, para que ela não se esfriasse.

Em muitas famílias aristocráticas, insistia-se que a mulher permanecesse de cama até um mês depois de dar a luz. Nas famílias humildes, por outro lado, não havia recursos para deixar a mulher no ócio, e muitas vezes a interrupção do trabalho dela era muito breve.

A obstetrícia tornou-se uma matéria obrigatória para estudantes de medicina em 1833 na Escócia e só em 1866, na Inglaterra. A primeira cesareana bem sucedida na Inglaterra foi realizada ainda no final do século 18, em 1793, pelo Dr. James Barlow. Só lembrando, não havia anestesia na época. Em meados do século 19, a mortalidade permanece alta, e a cesariana era freqüentemente combinada com a retirada do útero. Em 1880, com o advento da assepsia, foram desenvolvidas técnicas menos invasivas e a "operação clássica" - uma incisão vertical na parte superior do útero - se tornou cada vez mais utilizada. Esses cortes, contudo, curavam mal, e em 1906 foi introduzida a cirurgia moderna na “parte inferior”, que tinha um risco menor de perfuração subseqüente.

Em 1874, James Young Simpson utilizou um analgésico durante o parto, pela primeira vez – o clorofórmio. Agradecida, a paciente chamou a filha de Anestesia. A ideia de Simpson encontrou muita resistência entre os médicos e a parte mais conservadora da sociedade. Mas em 1853, John Snow aplicou clorofórmio na própria rainha Vitória, durante o parto do oitavo filho dela, e desde então o seu uso se difundiu universalmente. E Simpson recebeu um título de nobreza.

Também foram encontradas formas de combater a maior causa de morte entre as parturientes – a febre pós-parto. Os médicos receitavam ópio, conhaque e até mesmo champanhe, mas isso somente aliviava o sofrimento. Finalmente, em 1846, alguém teve a ideia genial de introduzir medidas preventivas simples, como lavar as mãos com sabonete ou desinfetar a água com cloro antes de usá-la durante o parto. A taxa de mortalidade das mulheres caiu bruscamente. Nos anos 60, começaram a ser desenvolvidos os primeiros anti-sépticos, e dez anos depois eles já eram empregados na obstetrícia.

Claramente, isso tudo estava reservado para as classes mais abastadas. Nas famílias mais simples, o dinheiro estava sempre em falta, e a mulher era geralmente a primeira a ficar sem, inclusive o dinheiro para pagar um médico. Trabalho pesado durante e imediatamente após a gravidez era normal. Uma mulher escreveu: "Se ela estivesse confinada em uma sexta-feira, ela ainda teria que planejar e colocar de lado o dinheiro de sábado e se não durar o suficiente, ela seria a única a ficar sem ou passar nervoso". A maioria das mulheres sofriam, durante a gravidez, de mal estar constante, varizes, mãos e pés inchados ou neuralgia, e davam à luz em casa, em condições totalmente anti-higiênicas. E, claramente, por motivos financeiros e filosóficos, ninguém chamava um médico: "Eu tinha como certo que as mulheres tinham que sofrer neste momento, e que era melhor ser corajosa e não fazer alarde”.

E, tal como em todas as áreas relacionadas a sexo, “se uma mulher morresse, isso somente provava a fraqueza dela e a incapacidade de ser mãe”.

 1860. Uma jaqueta como esta servia para disfarçar a barriga por ocasião de aparições públicas.

Numa foto rara, uma jovem grávida. Observe que não é ela que está sentada.

1871. Uma prostituta de onze anos, grávida.

O Incômodo Mensal - Parte II  

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Os documentos daquela época contam um pouco sobre a higiene durante a menstruação. A maior parte das informações foi retirada de fontes americanas, mas é muito provável que os mesmos meios fossem usados na Europa.

Por exemplo, são descritos absorventes de pano, um pouco menores que uma fralda. Os absorventes eram lavados e reutilizados. Alias, trabalho leve em casa era considerado a melhor forma de regular a menstruação e diminuir a dor. Por outro lado, a leitura e qualquer atividade intelectual consumiam energia demais e diminuíam o fluxo de sangue na área genital, com isso causando danos irreparáveis para o organismo da mulher.

Além disso, existiam fórmulas variadas, populares ou patenteadas, para interromper o corrimento de sangue. Um manual de Marion Harland, publicado em 1882, recomenda alguns remédios caseiros para os desconfortos da menstruação, como chá quente de gengibre para as cólicas. Um exemplo mais cabeludo, o bálsamo do doutor Chase:

Pegue 2,5 drs (1 dracma - 3,69 gramas) de ácido sulfúrico, adicione lentamente uma dracma de terebentina, mexendo constantemente com o pilão, e um dracma de álcool. Mexa até que a mistura deixe de fumegar, em seguida coloque-a em um frasco de vidro fechado. A mistura deve ser transparente, vermelho como sangue escuro. Se for feita a partir de materiais de baixa qualidade, será uma cor pálida, suja e será inapropriada para uso. Dose - adicione 40 gotas em um copo de chá, esfregue com uma colher de chá de açúcar mascavo, misture com água até que a xícara esteja quase cheia, e beba imediatamente. Repita a cada hora, durante 3-4 horas, mas o uso deve ser interrompido assim que não apareça mais sangue fresco. A droga não estraga com o passar do tempo, mas uma crosta forma-se na superfície, e deve ser quebrada, usando-se o remédio embaixo dela.

Honestamente, prefiro limão com sal. É especialmente encantadora a passagem “até que deixe de fumegar”, e creio que uma mulher deve ser muito corajosa para consumir esta substância.

O livro do doutor Chase tinha muitas outras receitas de como envenenar-se de forma mais eficiente.

Voltando aos absorventes, a questão que não quer calar é como as pobres mulheres vitorianas se viravam?

Os tampões eram utilizados ainda pelas egípcias, muitos anos antes de Cristo. Eram confeccionados de papiro, e provavelmente eram bem desconfortáveis, já que não é algo exatamente macio. Na Grécia Antiga, eram usados palitos de madeira leve enroladas em linho, no Japão – papel, na África, grama. Ainda assim, pelo que se sabe, tampões não eram utilizados no século 19.

Mas o que elas faziam, então?

Dependia, o mais provável, da posição social da mulher. Algumas não usavam absolutamente nada, e deixavam o sangue escorrer pelas saias, que elas também não trocavam durante vários dias (nem todas tinham saias o suficiente para uma menstruação prolongada). Muitas vezes, nas fábricas onde as mulheres trabalhavam, o chão era forrado de feno, para que aquele absorvesse as secreções. E não era preciso ser um detetive experiente para descobrir que uma mulher menstruada passou pelo quarto. Resumindo, eca. Não eram somente as mais simples que preferiam o princípio de “ deixe escorrer, não incomoda ninguém”, mas também mulheres da classe média. Muitas achavam que os absorventes congestionam o fluxo de sangue, o que é extremamente ruim. Algumas mulheres costuravam roupas íntimas escuras para esses dias.

Mas nem todas poderiam se permitir tamanha liberalidade com a menstruação. Em particular, as atrizes – podemos somente imaginar o que o público faria se ouvisse de Adelina Patti: “Não, hoje não vou cantar para vocês, nem amanhã, mas vou ficar a semana inteira em casa e tomar chá de ácido sulfúrico”. Se você é uma atriz, querendo ou não deve aparecer no palco. Não é de se surpreender que as primeiras propagandas de absorventes eram direcionadas justamente às atrizes.

Também é difícil imaginar uma senhorita aristocrática que em plena época de bailes se trancaria em casa, com saias escuras, enquanto as amigas dela fisgam os homens ricos e nobres.

Assim, os elementos mais progressivos da sociedade utilizavam absorventes.

No século 19, na Europa, os absorventes eram utilizados tanto pelas ricas, quanto pelas pobres. No caso desas últimas, eras somente uns panos velhos. Aquelas que podiam permitir-se isso, faziam uso de algo mais fino. Normalmente, uma mulher mais ou menos abastada tinha vários absorventes: deixava-os de molho durante a noite, e lavava um dia depois, e depois penduravam para secar. Quando as mulheres viajavam, elas ou estocavam os absorventes sujos para lavar em casa mais tarde, ou os queimavam. Alias, vendiam-se fogareiros portáteis especialmente para este fim. Os absorventes poderiam também ser tricotados, e a produção deles certamente era uma ocupação prazerosa para as horas de lazer.

No final do século 19, surgiram os absorventes descartáveis, porém a sua produção em massa enfrentou o problema de propaganda insuficiente. O que era de se esperar, já que a menstruação era um assunto mais do que delicado.

Os absorventes descartáveis eram feitos de pano, recheado de algodão, serragem ou musgo. Alguns tinham até uma camada de borracha para evitar vazamentos. Excelente, mas como manter este absorvente no devido lugar? A “lingerie” das mulheres vitorianas não facilitava muito. Assim, existiam aventais protetores e cintas-ligas especiais. O absorvente poderia se prender ao cinto com ganchinhos, e havia mesmo uma espécie de suspensórios... Era recomendado trocar o absorvente umas duas vezes por dia, e queimar os usados, certamente para evitar que alguém os veja por acidente.

Algumas ilustrações...


O Incômodo Mensal - Parte I  

Posted by Moriel in , ,

“E ela mesma arruinou a própria saúde: quando queria ir a um baile, tomava um limão com sal, para interromper as regras. As moças tinham uma superstição boba a esse respeito. Imaginavam que um homem tocará a sua mão, ou mesmo só olhará – e logo compreenderá tudo sobre a sua indisposição”.
Katherine Anne Porter, “Old Mortality”
 Mary Cassat, Young Lady Reading

Vou adiantar uma coisa, a senhorita acima vai ter cólicas fortíssimas, a menos que alguém arranque esse livro dela o mais rápido possível.

São poucos os tabus tão fortes e universais quanto os relacionados à menstruação. Até mesmo Marques de Sade, em seus livros, não demonstra muito interesse no assunto. Se bem que, convenhamos, cachorros decapitados, fezes e homens castrados são assuntos bem mais divertidos. Não é de se surpreender que, durante a era vitoriana, muito pouco espaço era reservado à discussão deste assunto.

É difícil imaginar quão pouco os médicos e os cientistas, sem falar nos meros mortais, sabiam sobre o corpo humano no século 19. Na primeira metade do século, acreditava-se, por exemplo, que os óvulos desciam dos ovários somente como consequência do ato sexual.

As teorias cientificas eram fortemente influenciadas pelas doutrinas éticas e sociais prevalentes acerca da inferioridade da mulher: a ciência refletia, em vez de determinar, as questões morais da época...

As mulheres da era vitoriana tinham muitas ocupações. As mais pobres, frequentemente, carregavam nas costas todos os trabalhos da casa: cozinhar, lavar roupa, limpar a casa, cuidar dos filhos, aturar o mau humor do marido... Uma senhora mais abastada deveria embelezar a sala de visitas e cumprir as suas obrigações sociais – também não era a ocupação das mais simples, agradar pessoas que lhe são profundamente desagradáveis, mas de quem depende toda a carreira do seu marido. O último, mas não o menos importante, tanto essas quanto aquelas deveriam parir filhos.

Apesar de todos estes encargos, as mulheres eram consideradas o sexo frágil, propenso a toda sorte de moléstias. O útero era tido como a fonte principal dessas e, obviamente, estava cercado de inúmeros mitos. Muitos destes mitos diziam respeito à menstruação – misterioso mal sobre o qual meditavam inúmeros médicos e críticos sociais. A opinião popular dizia que, durante a menstruação, a mulher está em perigo:

No decorrer deste período, a mulher não está se sentindo bem ou não está em ordem. Várias sensações desagradáveis estão associadas a ela [menstruação]; mas quando é acompanhada de dor intensa, o que não é raro, passa a ser uma doença, e a mulher não pode conceber, enquanto não se curar. Durante as assim chamadas “regras” deve-se evitar comida difícil de digerir, danças em salas quente, contatos repentino com frio ou calor, bem como a excitação emocional.
Charles Knowlton, 1832

De acordo com os médicos e outros indivíduos mais ou menos inteligentes e bem intencionados, nada piorava o estado da mulher durante os incômodos mensais tanto quanto atividade intelectual. Não podemos deixar de notar que também em outros períodos esta atividade não era bem vista, mas era particularmente prejudicial durante a menstruação. Os assim chamados especialistas avaliavam de várias formas os danos da leitura. Por exemplo, algumas figuras proeminentes da sociedade lamentavam somente a leitura de romances. Em 1870, Orson Fowler, frenólogo americano, atacou estes rabiscos tão nocivos:

A leitura que estimula emoções e inflama as paixões pode provocar ou aumentar o congestionamento do útero, o que por sua vez pode levar a várias moléstias, incluindo (…) menstruação dolorosa.

O refrão para todas essas sentenças era: “E ela enlouqueceu”. Conhecendo o desenvolvimento da psiquiatria daqueles tempos, podemos afirmar com toda a convicção que ninguém queria enlouquecer naquela época. Nada de bom esperava o pobre coitado. Ainda assim, não é muito crível que uma jovem deixaria de lado, digamos o “Morro dos Ventos Uivantes” que não terminou de ler, impressionada pelas admoestações dos moralistas.

Se bem que outros iam mais longe ainda, condenando não somente as histórias de amor, mas também a educação superior para mulheres em geral. Nesta área, os americanos se destacaram bastante. Assim, em 1873, o doutor Edward Clarke de Harvard publicou um livro chamado “Sexo na Educação”. Este trabalho comunicava que a educação superior mina a capacidade reprodutiva das mulheres, obrigando-as a trabalhar num momento crítico do desenvolvimento delas. Enquanto as feministas americanas escreviam contra-argumentos, vários ativistas do outro lado do oceano armaram-se com o livro de Clarke. Pois ele provava, sob perspectiva médica, que proibir o acesso das mulheres à educação superior é uma ação extremamente benigna. Pois a própria Natureza criou as mulheres para uma função diferente daquela dos homens, e esforços intelectuais excessivos durante a menstruação podem levar a uma série de doenças. Obviamente, também as feministas inglesas ficaram descontentes com essa afirmação.

O processo de crescimento, passagem do mundo da infância para o mundo cheio de tentações dos adultos era assustador. E, provavelmente, mais assustador para os médicos que para as suas pacientes. Inúmeros livros sobre fisiologia e higiene, dedicados às adolescentes, criavam a figura de uma criança frágil, terrivelmente assustada com as mudanças que ocorrem com o corpo dela. Essa menina normalmente suspirava, chorava sem motivo e era muito tímida.

E provavelmente mais assustador do que para os médicos para seus pacientes. Muitos livros sobre a fisiologia e higiene, em adolescentes, uma imagem de uma criança frágil, com medo de mudanças ocorrendo a morte de seu corpo. Esta menina é geralmente suspirou, deixou cair as lágrimas involuntárias e geralmente tímido de pessoas.

Obviamente, ninguém poderia dar explicações sobre uma coisa tão vergonhosa quanto menstruação a essa inocente criatura. As meninas muitas vezes não sabiam que medidas higiênicas deveriam tomar, e achavam que o que estava acontecendo com elas era algo ruim.

O sentimento de culpa era bastante difundido entre as mulheres da era vitoriana. A menstruação era considerada uma doença de modo geral, e uma menstruação acompanhada de forte desconforto, uma doença particularmente vil e antinatural. A opinião popular sobre o assunto preferia a versão de que “é tudo culpa dela mesma”.

Se alguma etapa da menstruação é acompanhada de dor, significa que há algo errado ou com a roupa, ou com a dieta, ou com o comportamento da mulher.

E como era culpa dela, a mulher que havia, por exemplo, lido um romance de arrancar lágrimas antes de dormir, não tinha direito de reclamar, e muito menos incomodar aqueles que a cercavam com os próprios problemas. Em 1885, a americana Almira McDonald escreveu no diário dela:
19 de abril – Tenho regras, dor forte o dia todo – que pena que me sinto tão mal, isso pode chatear Angus (marido dela).
20 de abril – Às 9:40, Angus pegou o trem para Chicago. Me sinto melhor. É tão ruim que ele vai embora quando me sinto mal, mas é preciso esperar o melhor.

Bibliografia:

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