Era uma vez um jovem, aprendiz de um artesão qualquer. Mas, aos 17 anos, ele foi acometido por um mal terrível, e a sua saúde começou a piorar. Tinha acessos da terrível doença diariamente, várias vezes. Tinha convulsões, o pescoço ficava tenso e inchado. Um ano mais tarde, tinha dificuldades para ingerir alimentos, e passava até 15 horas seguidas sem comer. Por causa da doença, deixou de trabalhar e ficou reduzido a miséria. Agora, ele parecia um zumbi. O seu corpo secou, com exceção dos pés, que incharam. O nariz sangrava, tinha problemas de vista e pulso acelerado. Além disso, ele começou a urinar na cama. Depois de passar várias semanas inconsciente, ele morreu.
Então, que doença que esse coitado pegou? Será que é comum? Tem tratamento?
O conteudo a seguir não é recomendado para pessas que ainda têm pesadelos com os absorventes de crochê, e também para crianças e mulheres grávidas. Saiba mais!
Alexandra da Baviera, prima de Sisi. Alexandra acreditava que havia engolido um piano de vidro, e deveria, portanto, tomar cuidado, já que se o piano quebrasse, cortaria-a por dentro. Isso restringiu muito as suas atividades, desde a infância: Alexandra acreditava que o incidente ocorreu quando era criança, e jamais deixou de acreditar nisso.
Não posso deixar de citar Gwen Raverat ao continuar sobre o tema dos espartilhos:
As senhoras nunca pareciam estar à vontade... Pois seus vestidos eram sempre feitos apertados demais, e os corpetes enrugavam horizontalmente por causa da tensão, e seus espartilhos apareciam como uma borda afiada no meio das costas delas. E apesar das barbatanas, eles poderiam formar saliência abaixo da cintura, na frente; pois, pobres coitadinhas, elas eram nada mais que humanas, apesar de tudo, e elas precisavam expandir para algum lugar.
Agora, Moriel vai compartilhar a sua experiência de tight-lacing.
Antes de tudo, a recomendação é usar espartilho sob medida. Ele é muito confortável, e quando você o coloca, se sente como se estivesse numa poltrona: relaxa as costas, não precisa contrair a barriga, nem nada, tudo fica retinho e no lugar por conta própria. Não incomoda para se movimentar, não sai do lugar, não deixa os seios "saltar" do espartilho. Para usar um espartilho diariamente, a mulher tem que ser muito sortuda para achar um pronto que se ajuste bem no seu corpo (principalmente se você for magra e não tiver uma boa quantidade de silicone nos seios).
Se você tiver qualquer problema respiratório, ou estudar/trabalhar num local que tenha muitas escadas, ou tenha que realizar atividades físicas intensas, pense duas vezes. Ou mais. O espartilho realmente faz diferença nessas horas.
Tive alguns problemas digestivos, mas foi mais por falta de auto-controle meu. Enquanto estava de espartilho, a quantidade de comida que entrava era bastante limitada. Bom pra emagrecer, né? Depois de alguns dias passando fome, comecei comer de pouquinho em pouquinho, mas o tempo todo. Além disso, tirava o espartilho à noite, deitava na cama, ficava lá uns 30 minutos e partia galopando em direção à geladeira. De alguma forma, este regime alimentar acabou não me fazendo bem.
Banheiro. Aperta um pouco a bexiga, e talvez você tenha que visitar o quarto de reflexões um pouco mais frequentemente. Ou beber menos, o que é bom, afinal, você não pode ingerir muitas coisas de uma vez e nem suar.
É bom usar alguma coisa por baixo do espartilho. Suor mais espartilho justo não é uma combinação boa para a pele, a menos que queira ter calos em lugares inusitados.
Sobre deslocamento dos órgãos, afinamento definitivo da cintura, deformações e todos os horrores, nada posso dizer. Acho que precisaria usar um espartilho por bem mais tempo do que eu usei.
Historiadoras Valerie Steele e Lynn Kutsh fizeram uma pesquisa sobre as consequências negativas do uso do espartilho, estudando exemplos de espartilhos antigos e mulheres da atualidade que usam espartilho regularmente. Em particular, tentaram descobrir o quão seriamente o espartilho afeta o volume dos pulmãos. Experiências similares foram feitas em 1998, quando voluntários usaram espartilhos do século 19 que diminuíam a sua cintura em 7,5 cm. Foi observado que o volume pulmonar diminuiu em média em 9%, chegando em alguns casos a 29%. De acordo com este estudo, espartilhos vitorianos realmente dificultavam a respiração e poderiam leva a desmaios, em particular durante atividades físicas intensas, por exemplo num baile.
Contrariamente a uma crença bastante popular, espartilhos não causam desvios de coluna, muito pelo contrário, e, em alguns casos, podem aliviar a dor nas costas. Ainda assim, uso prolongado do espartilho resulta em enfraquecimento dos músculos dorsais e abdominais. Além disso, espartilhos podem provocar deformação de costelas, caso sejam usados desde a infância. Mas no século 19, seu uso normalmente iniciava-se após 10-12 anos. Apesar do uso de espartilho poder causar grande desconforto, isso não levava a deformações permanentes: mesmo apertando as costelas, depois da remoção do espartilho, elas voltavam ao lugar. Se bem que no século 18 algumas mulheres dormiam de espartilho, e a prática persistiu no século 19.
Sobre o desconforto, novamente deixamos falar Gwen Raverat:
Nos sabíamos que era quase impossível - estavamos flaqueados por todos os lados e em desvantagem numérica - mas nos rebelamos-nos contra espartilhos. Margaret diz que a primeira vez que ela foi colocada dentro de um - quando ela tinha por volta de treze - ela correu dando voltas pelo quarto gritando de raiva. Eu não fiz isso. Eu simplesmente sai e o tirei; aguentei de mau humor a bronca que se seguiu, quando a minha condição de casca mole foi descoberta; o espartilho foi recolocado à força; e, o mais rapidamente possivel, sai e o tirei novamente. Uma das minhas governantas costumava chorar pela minha iniquidade, a este respeito. Eu tinha má figura, e para mim eles eram verdadeiros instrumentos de tortura; eles preveniam-me de respirar, e cavavam buracos profundos nas minhas partes mais macias de cada lado. Tenho certeza de que qualquer tormento pudesse ser pior pra mim.
Fígado cortado em dois é mais uma historinha de horror famosa. Realmente, por causa de um espartilho bem apertado, o fígado desce e alonga-se. Se apertar muito forte, é possível realmente causar danos. Ainda assim, de acordo com Valerie Steele, a maioria de notificações sobre deformações do fígado no século 19 está ligado não ao uso de espartilhos, mas a doenças como hepatite e cirrose. Boatos de que tight-lacing pode causar úlcera não foram confirmados durante o estudo. Contudo, descobriu-se que o espartilho pode causar prisão do ventre ou pressionar a beixiga, causando problemas urinários.
As fãs de espartilhos muitas vezes tinham problemas uterinos, mas também sob certas condições. Inúmeras mulheres, no século 19, sofriam de prolapso uterino, muitas vezes causado por numerosas gestações. Por causa da pressão sobre a parte inferior da barriga, os espartilhos agravavam esta condição. Principal tratamento contra prolapso uterino eram os pessários, uma espécie de rolhas de borracha colocadas na vagina para manter o útero no lugar. É interessante o fato de que as propagandas da época muitas vezes mostravam os pessários acoplados aos espartilhos. Mulheres que usavam espartilhos durante a gravidez ou depois do parto corriam sérios riscos. Por exemplo, vejamos o que escreve Guy de Maupassant:
Eu já havia esquecido essa história, mas há alguns dias, em uma das praias da moda, vi uma graciosa, encantadora e sedutora senhora, que usufruía de amor e respeito dos homens que a cercavam.
Eu andava pela praia de braço com um amigo, médico neste resort. Em breve, vi a babá e três crianças que brincavam na areia. Um par de pequenas muletas, largadas do lado, causaram-me um sentimento lacinante de compaixão. E então eu notei que estas três pequenas criaturas são monstruosas, corcundas, tortas, horrendas.
O médico disse-me:
- Estes são os filhos da encantadora senhora que você acabou de encontrar.
Profunda compaixão por ela e por seus filhos apossou-se do meu coração. Exclamei:
- Pobre mãe! E ela ainda pode rir!
Meu amigo continuou:
- Não tenha pena dela, meu querido. É preciso ter pena dos seus pobres pequenos. Eis as consequências das cinturas apertadas, que continuam finas até o último dia. Estas aberrações são produto do espartilho. Ela sabe que arrisca a vida assim. Mas ela não se importa, basta que ela seja bela, basta que a amem!
Existiam, é claro, espartilhos especiais para este período, que deveriam alargar-se a medida que o feto crescia, mas eles pouco se distinguiam dos seus irmãos mais tradicionais. O uso de espartilhos durante a gravidez levava a abortos ou problemas no parto. Não é de se surpreender que espartilhos muito apertados eram usados para induzir aborto.
Todas essas consequências do uso do espartilho podem levar-nos a concluir que o espartilho é um imenso mal, e todos aqueles que o usam estão condenados a uma morte dolorosa. Na verdade, é preciso separar as moscas da sopa. O uso do espartilho por si só não mata ninguém, desde que a pessoa modere e não se aperte até os olhos pularem das órbitas. Afinal, para algumas mulheres, 55 cm de cintura é um sonho inalcansável, enquanto para outras são só alguns centímetros a menos em relação ao natural. Afinal, o quanto as mulheres vitorianas diminuíam as suas sinturas?
Na Inglaterra, no século 19, corriam boatos sobre mulheres que não conseguem viver sem espartilho, usam esta peça de roupa 24 horas por dia, e apertam a cintura até 30 cm. Estas histórias normalmente começavam com palavras "Não, não sou assim, mas uma vez ouvi sobre a fulana, e ela..." Além disso, dizia-se que existiam colégios especiais, cujo objetivo principal é o afinamento das cinturas das alunas. Ou mesmo alunos. Os funcionários destas instituições obrigam os adolescentes a dormir em espartilhos apertados, diminuindo gradativamente as suas cinturas até os almejados 30 - 35 cm.
A principal fonte de informação sobre esses locais é a Englishwoman's Domestic Magazine, que recebeu, entre 1867 e 1874, mais de 150 cartas contando sobre as regras das tight-lacing schools e elogiando espartilhos. Assim, uma tal de Norah, em 1867, contou sobre a sua permanência em "uma escola em Londres para senhoritas" onde "a cintura das alunas era afinada em 3 cm todo mês". Quando ela saiu desta mesma escola, tinha, segundo ela mesma, 33 cm de cintura. Um traço distintivo das cartas cujos autores descrevem vividamente as alegrias do tight-lacing era o vocabulário. Palavras como "disciplina", "coerção", "sofrimento", "tortura" e "submissão" cobriam as páginas. Enquanto isso, as propagandas desenhavam uma imagem mais positiva: "prazer", "graça", "esplendor", "conforto"...
Outras revistas também recebiam correspondências similares. Assim, em 1863, um tal de Fanny escreveu para a revista The Wueen sobre como, aos 16 anos, foi enviado a um pensionato, onde os meninos colocavam espartilhos, cujos laços eram amarrados por duas criadas robustas, toda manhã. Outro jovem comunicou que, ao chegar no pensionato, foi imediatamente colocado dentro de um rígido espartilho, cujos laços depois foram presos por um cadeado, cuja chave foi, por sua vez, recolhida pela diretora, "bela viúva de 24 anos". Na sua carta para Society (1899), uma certa "Cintura de Vespa" contou de como revoltou-se contra o espartilho na infância. Mas se a governanta de Gwen somente chorava, a governanta francesa da "Cintura de Vespa" era uma pessoa bem mais decidida: "Depois, seguiu-se a punição, que me fez obedecer e fez-me bem. Me penduraram no teto pelos pulsos, e os pés, em botas de salto alto, foram amarrados em argolas presas no chão. Nesta posição, espancaram-me cruelmente, o que me causou forte dor, mas não deixou marcas, pois eu estava espartilhada. Antes de me soltar, a governanta apertou a minha cintura até 38 cm".
Sem dúvida, os ingleses do século 19 não tinham muita cerimônia com seus filhos, mas essas historinhas fazem pensar é em fantasias eróticas. Espancamentos, dominação feminina, sapatos de salto alto, espartilhos, amarras - enfim, tudo que um sado-masoquista iniciante poderia vir a precisar. Apesar de muitos historiadores utilizarem este tipo de material para ilustrar os horrores do espartilho, a mesma Valerie Steele está certa de que em sua maioria, autores dessas cartas tinham, simplesmente, um fetishe com espartilhos. É possível que tenham realmente vivido tudo o que descreviam, incluindo a transformação em ampulheta, mas devemos analisar criticamente o seu testemunho. Sua experiência difere significativamente da experiência diária da dona de casa vitoriana.
As ilustrações em revistas de moda e caricaturas também não dão uma resposta confiável para o grau de aperto que as senhoras vitorianas passavam. Nem mesmo as fotografias daquela época merecem confiança, já que poderiam ser retocadas para adequar a cintura feminina ao ideal inatingível. Trabalho com espartilhos que sobreviveram até os nossos dias pode esclarecer um pouco essa questão, apesar de não dar, também, uma resposta definitiva. Por exemplo, ao estudar 197 da coleção de Symington do museu de Leicester, descobriu-se que somente um deles afinava a cintura até 46 cm. Mais 11 - até 48 cm. A maioria dos exemplares afinavam a cintura até 50 - 66 cm.
Mas a circunferência da cintura não é um valor absoluto. Por exemplo, um exemplar de Nova Yorque afinava a cintura até 45 cm, com 81 cm de peito e 63 cm de quadril. Obviamente, este espartilho pertencia a uma pessoa bem magrinha. A grande maioria dos espartilhos produzidos entre 1870 e 1880 tinham os seguintes tamanhos: 76-50-76, 83-53-81, 81-56-83, 76-58-78. De acordo com a propaganda da época, tamanhos padrões eram de 45 e 76 cm de cintura.
Só para citar alguns exemplos, claro, mas é fácil perceber que as mulheres do passado estavam bastante anciosas para interromper uma gravidez indesejada. Dada a mortalidade materna e a miséria de muitas famílias, isso é bastante compreensível.
Ter filhos era algo perigoso e complicado para a mulher, e nem todas elas, em particular as das classes menos favorecidas, compartilhavam a visão teórica de que mulheres deveriam “tomar conta da casa, satisfazer os desejos dos homens e ter filhos”.
Quais possam ser os sentimentos de uma jovem esposa quando ela suspeita pela primeira vez que será mãe, eu dificilmente posso imaginar. Se ela pensar corretamente, agradecerá a Deus pois não há ofício mais elevado e sagrado que o de uma mãe. É realmente maravilhoso quão sedo a jovem mãe, se ela for uma verdadeira mulher, descobre ser fácil cumprir as obrigações dela para com o bebê.
A maior parte das mulheres sabia, a partir da experiência prática, que isso estava longe de ser verdade.
Para começar, a gravidez era frequentemente uma surpresa para as mulheres da era vitoriana. As mães tinham vergonha de explicar para as filhas alguns detalhes íntimos, e a ignorância nessas questões era assustadora. Às vezes, a mulher compreendia que não era aquele prato favorito dela que a fazia engordar somente nos últimos meses da gestação. “Cerca de um mês antes de o bebê nascer, eu me lembro de perguntar a minha tia por onde o bebê sairia. Ela ficou estupefata e não me explicou muita coisa”.
Na melhor das hipóteses, a vergonha revestia-se de eufemismos. Por exemplo, a autora de um livro sobre este tema utilizou a seguinte descrição: “chega um momento na vida de toda lady em que ela deve afastar-se da sociedade e ouvir a si mesma”.
Era considerado desfavorável se um cavalheiro a visse num determinado momento da vida. Supunha-se que mesmo o pai não tinha idéia do que estava acontecendo em sua casa. Ele não perguntava por que a mãe está com náuseas e ela muitas vezes foi vista com lágrimas nos olhos.
Como nada se falava sobre o estado da mulher, também não se julgava necessário aliviar de alguma forma a vida dela. As mais pobres continuavam trabalhando até o parto, e mesmo nas casas de classe média esperava-se que a mulher irá cumprir as suas funções de dona de casa, tal como ela fazia anteriormente, sem quaisquer descontos.
Entre as classes mais abastadas, porém, o quadro era totalmente diferente. Àquelas que poderiam permitir-se ficarem ociosas durante a gravidez, dizia-se que se movimentar demais faz mal a saúde. As senhoras preferiam não se mostrar à sociedade, permanecendo afastadas durante alguns meses, e preparando as roupas para o bebê e para si mesmas.
O parto por si só era algo muito mais arriscado do que hoje em dia. Em média, na Grã-Bretanha, uma gravidez em 200 levava a morte da mãe no século 19. Para fins de comparação, atualmente, a taxa de média de mortalidade materna dos países desenvolvidos é de uma morte a cada 5000 gestações.
O parto poderia ser acompanhado tanto por uma parteira quanto por um médico – na primeira metade do século 19, não se requeria nenhuma licença para essa atividade. Na metade do século, todas as mulheres da casa estavam presentes durante o parto: irmãs, tias, criadas corriam pra cima e pra baixo pela escada com jarras de água fervida. Mas depois de 1860, quando os médicos e as enfermeiras ganham prioridade para permanecer ao lado das parturientes, mesmo as parentes mais próximas são expulsas do quarto.
Depois do nascimento da criança, a mãe era cercada de cuidados, e não permitiam que levantasse da cama durante nove dias. Era alimentada de colherzinha, não sendo recomendado nem mesmo sentar-se na cama. Todas as janelas estavam fechadas, para que ela não se esfriasse.
Em muitas famílias aristocráticas, insistia-se que a mulher permanecesse de cama até um mês depois de dar a luz. Nas famílias humildes, por outro lado, não havia recursos para deixar a mulher no ócio, e muitas vezes a interrupção do trabalho dela era muito breve.
A obstetrícia tornou-se uma matéria obrigatória para estudantes de medicina em 1833 na Escócia e só em 1866, na Inglaterra. A primeira cesareana bem sucedida na Inglaterra foi realizada ainda no final do século 18, em 1793, pelo Dr. James Barlow. Só lembrando, não havia anestesia na época. Em meados do século 19, a mortalidade permanece alta, e a cesariana era freqüentemente combinada com a retirada do útero. Em 1880, com o advento da assepsia, foram desenvolvidas técnicas menos invasivas e a "operação clássica" - uma incisão vertical na parte superior do útero - se tornou cada vez mais utilizada. Esses cortes, contudo, curavam mal, e em 1906 foi introduzida a cirurgia moderna na “parte inferior”, que tinha um risco menor de perfuração subseqüente.
Em 1874, James Young Simpson utilizou um analgésico durante o parto, pela primeira vez – o clorofórmio. Agradecida, a paciente chamou a filha de Anestesia. A ideia de Simpson encontrou muita resistência entre os médicos e a parte mais conservadora da sociedade. Mas em 1853, John Snow aplicou clorofórmio na própria rainha Vitória, durante o parto do oitavo filho dela, e desde então o seu uso se difundiu universalmente. E Simpson recebeu um título de nobreza.
Também foram encontradas formas de combater a maior causa de morte entre as parturientes – a febre pós-parto. Os médicos receitavam ópio, conhaque e até mesmo champanhe, mas isso somente aliviava o sofrimento. Finalmente, em 1846, alguém teve a ideia genial de introduzir medidas preventivas simples, como lavar as mãos com sabonete ou desinfetar a água com cloro antes de usá-la durante o parto. A taxa de mortalidade das mulheres caiu bruscamente. Nos anos 60, começaram a ser desenvolvidos os primeiros anti-sépticos, e dez anos depois eles já eram empregados na obstetrícia.
Claramente, isso tudo estava reservado para as classes mais abastadas. Nas famílias mais simples, o dinheiro estava sempre em falta, e a mulher era geralmente a primeira a ficar sem, inclusive o dinheiro para pagar um médico. Trabalho pesado durante e imediatamente após a gravidez era normal. Uma mulher escreveu: "Se ela estivesse confinada em uma sexta-feira, ela ainda teria que planejar e colocar de lado o dinheiro de sábado e se não durar o suficiente, ela seria a única a ficar sem ou passar nervoso". A maioria das mulheres sofriam, durante a gravidez, de mal estar constante, varizes, mãos e pés inchados ou neuralgia, e davam à luz em casa, em condições totalmente anti-higiênicas. E, claramente, por motivos financeiros e filosóficos, ninguém chamava um médico: "Eu tinha como certo que as mulheres tinham que sofrer neste momento, e que era melhor ser corajosa e não fazer alarde”.
E, tal como em todas as áreas relacionadas a sexo, “se uma mulher morresse, isso somente provava a fraqueza dela e a incapacidade de ser mãe”.
Pegue 2,5 drs (1 dracma - 3,69 gramas) de ácido sulfúrico, adicione lentamente uma dracma de terebentina, mexendo constantemente com o pilão, e um dracma de álcool. Mexa até que a mistura deixe de fumegar, em seguida coloque-a em um frasco de vidro fechado. A mistura deve ser transparente, vermelho como sangue escuro. Se for feita a partir de materiais de baixa qualidade, será uma cor pálida, suja e será inapropriada para uso. Dose - adicione 40 gotas em um copo de chá, esfregue com uma colher de chá de açúcar mascavo, misture com água até que a xícara esteja quase cheia, e beba imediatamente. Repita a cada hora, durante 3-4 horas, mas o uso deve ser interrompido assim que não apareça mais sangue fresco. A droga não estraga com o passar do tempo, mas uma crosta forma-se na superfície, e deve ser quebrada, usando-se o remédio embaixo dela.
Honestamente, prefiro limão com sal. É especialmente encantadora a passagem “até que deixe de fumegar”, e creio que uma mulher deve ser muito corajosa para consumir esta substância.
Assim, os elementos mais progressivos da sociedade utilizavam absorventes.
Algumas ilustrações...
“E ela mesma arruinou a própria saúde: quando queria ir a um baile, tomava um limão com sal, para interromper as regras. As moças tinham uma superstição boba a esse respeito. Imaginavam que um homem tocará a sua mão, ou mesmo só olhará – e logo compreenderá tudo sobre a sua indisposição”.Katherine Anne Porter, “Old Mortality”
Vou adiantar uma coisa, a senhorita acima vai ter cólicas fortíssimas, a menos que alguém arranque esse livro dela o mais rápido possível.
No decorrer deste período, a mulher não está se sentindo bem ou não está em ordem. Várias sensações desagradáveis estão associadas a ela [menstruação]; mas quando é acompanhada de dor intensa, o que não é raro, passa a ser uma doença, e a mulher não pode conceber, enquanto não se curar. Durante as assim chamadas “regras” deve-se evitar comida difícil de digerir, danças em salas quente, contatos repentino com frio ou calor, bem como a excitação emocional.Charles Knowlton, 1832
A leitura que estimula emoções e inflama as paixões pode provocar ou aumentar o congestionamento do útero, o que por sua vez pode levar a várias moléstias, incluindo (…) menstruação dolorosa.
O refrão para todas essas sentenças era: “E ela enlouqueceu”. Conhecendo o desenvolvimento da psiquiatria daqueles tempos, podemos afirmar com toda a convicção que ninguém queria enlouquecer naquela época. Nada de bom esperava o pobre coitado. Ainda assim, não é muito crível que uma jovem deixaria de lado, digamos o “Morro dos Ventos Uivantes” que não terminou de ler, impressionada pelas admoestações dos moralistas.
Se bem que outros iam mais longe ainda, condenando não somente as histórias de amor, mas também a educação superior para mulheres em geral. Nesta área, os americanos se destacaram bastante. Assim, em 1873, o doutor Edward Clarke de Harvard publicou um livro chamado “Sexo na Educação”. Este trabalho comunicava que a educação superior mina a capacidade reprodutiva das mulheres, obrigando-as a trabalhar num momento crítico do desenvolvimento delas. Enquanto as feministas americanas escreviam contra-argumentos, vários ativistas do outro lado do oceano armaram-se com o livro de Clarke. Pois ele provava, sob perspectiva médica, que proibir o acesso das mulheres à educação superior é uma ação extremamente benigna. Pois a própria Natureza criou as mulheres para uma função diferente daquela dos homens, e esforços intelectuais excessivos durante a menstruação podem levar a uma série de doenças. Obviamente, também as feministas inglesas ficaram descontentes com essa afirmação.
E provavelmente mais assustador do que para os médicos para seus pacientes. Muitos livros sobre a fisiologia e higiene, em adolescentes, uma imagem de uma criança frágil, com medo de mudanças ocorrendo a morte de seu corpo. Esta menina é geralmente suspirou, deixou cair as lágrimas involuntárias e geralmente tímido de pessoas.
O sentimento de culpa era bastante difundido entre as mulheres da era vitoriana. A menstruação era considerada uma doença de modo geral, e uma menstruação acompanhada de forte desconforto, uma doença particularmente vil e antinatural. A opinião popular sobre o assunto preferia a versão de que “é tudo culpa dela mesma”.
Se alguma etapa da menstruação é acompanhada de dor, significa que há algo errado ou com a roupa, ou com a dieta, ou com o comportamento da mulher.
E como era culpa dela, a mulher que havia, por exemplo, lido um romance de arrancar lágrimas antes de dormir, não tinha direito de reclamar, e muito menos incomodar aqueles que a cercavam com os próprios problemas. Em 1885, a americana Almira McDonald escreveu no diário dela:
19 de abril – Tenho regras, dor forte o dia todo – que pena que me sinto tão mal, isso pode chatear Angus (marido dela).
20 de abril – Às 9:40, Angus pegou o trem para Chicago. Me sinto melhor. É tão ruim que ele vai embora quando me sinto mal, mas é preciso esperar o melhor.
Bibliografia:
História
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