Traje de Montaria  

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Um traje de montaria, como diz o nome, é uma roupa específica para andar a cavalo. Além disso, poderia ser vestido também para passeios a pé, viagens, etc. Eram confeccionados da mais ampla variedade de materiais – de seda leve e colorida até o tweed resistente, que permite cavalgar pela floresta sem ter medo dos galhos. No verão, eram populares trajes de montaria de algodão.


A partir da segunda metade do século 17, uma senhora vestia, para andar a cavalo, uma blusa e uma jaqueta bem justas, uma longa saia, e um chapéu, que frequentemente seguia a moda masculina do momento (na era vitoriana, uma cartola com um véu). Botas de cano alto, luvas e uma gravata completavam o conjunto.

Mas vamos começar do começo...

Na Idade Média, entre os séculos 9 e 12, as mulheres andavam a cavalo montadas de lado, sentadas sobre uma almofada, com os pés apoiados num suporte. Essa postura era considerada mais modesta e a mais adequada para uma mulher. Normalmente, um homem ou levava o cavalo com a dama assim acomodada pelas rédeas, ou montava na frente dela. 

A caça e os torneios eram, naquela época, os esportes da nobreza, e as mulheres obviamente não queriam perder a chance de assistir. O desejo das damas de estarem presentes durante as caçadas levou ao aperfeiçoamento da sela feminina e da forma de montar: o corpo ficou paralelo aos ombros do cavalo, o que tornou a empreitada toda mais segura e deu à mulher um controle maior sobre o cavalo.

A sela feminina, alias, é por direito chamada de “sela das rainhas” - pois eram elas que tinham a mais entusiástica participação em seu aperfeiçoamento. Entre as amazonas coroadas podemos enumerar a rainha francesa Catarina de Medici e a imperatriz russa Catarina II, que frequentemente montava à moda masculina.

Em torno do século 14, surgiu uma vestimenta que visava proteger a roupa das amazonas da sujeira: saia de um tecido mais rústico, vestida sobre as roupas normais. Esta indumentária, alias, sobreviveu a todos os caprichos da moda, já que era simples, prática e barata, sendo usada até o século 19.

1633 Henrietta Maria da França
Os primeiros trajes de montaria não eram muito diferentes dos vestidos do dia a dia.

Os trajes femininos destinados especificamente a andar a cavalo surgiram na segunda metade do século 16, antes disso utilizavam-se vestidos normais. O traje de montaria incluía elementos da roupa masculina (por exemplo calças ou chapéus), mas refletiam também as tendências da moda feminina. Os primeiros modelos lembravam parcialmente os uniformes masculinos, mas como andar a cavalo era considerado uma arte e diversão nobre, eram extremamente refinados e luxuosos.

A nova moda não caiu nas graças de todo mundo de imediato. Em seu diário (12 de junho, 1666), Samuel Pepys escreveu:
Walking in the galleries at White Hall, I find the Ladies of Honour dressed in their riding garbs, with coats and doublets with deep skirts, just, for all the world, like mine; and buttoned their doublets up to the breast, with periwigs under their hats; so that, only for a long petticoat dragging under their men's coats, nobody could take them for women in any point whatever; which was an odde sight, and a sight did not please me.
Passeando nas galerias em White Hall, eu encontrei as Damas de Honra vestindo os seus trajes de montaria, com casacos e jaquetas de abas longas, iguais, em tudo, ao meu; e abotoavam as jaquetas delas até o peito, com perucas sob os chapéus delas; de modo que, se não fosse a longa saia arrastando-se sob seus casacos masculinos, ninguém poderia tomá-las por mulheres em qualquer ponto; o que era uma visão esquisita, e uma visão que não me agradou.
Outro crítico, Thomas Ellwod, escreveu em seu poema “A Looking Glass for the Times” (aproximadamente 1670):
Some Women (Oh the shame!) like ramping Rigs,
Ride flaunting in their powder'd Perriwigs;
Astride they sit (and not ashamed neither),
Dress up like men in Jacket, Cap, and Feather!
Nem todos falaram mal. Também em 1670, Cardeal Dubois escreveu:
Mme de Fontanges – let us follow our young beauty as she goes hunting with her prince. That day she was wearing an expensively embroidered riding habit and a hat covered with the most beautiful plumes procurable. She looked so elegant in this costume none other could have suited her better.
Mme de Fontanges – sigamos a nossa jovem beleza enquanto ela vai à caça com seu príncipe. Naquele dia, ela estava vestindo um traje de montaria ricamente bordado e um chapéu coberto com as penas mais bonitas que se pudesse encontrar. Ela parecia tão elegante neste traje e nenhum outro poderia ficar melhor nela.
1700 Marie Adelaide de Savoy
Foi algo nesse estilo que incomodou tanto Samuel Pepys.

1776 Lady Worsley 

Inicialmente, a principal influência era a moda da corte francesa, mas já no final do século 18, a roupa de um gentleman inglês foi tomada por padrão, e os trajes de montaria se tornaram mais simples e funcionais.
Quanto cinturas altas estavam na moda, entre 1790 e 1820, o traje poderia ser uma espécie de casaco, chamado de riding coat (isto é, redingote), ou uma saia com uma jaqueta curta (muitas vezes, mais longa atrás).

1816 Journal des Dames e des Modes
Os trajes de montaria poderiam ser muito simples...

1817 Ackermann's Repository, "The Glengary Habit" 
...Ou cheios de babados e bordados, mesmo que inspirados pelo uniforme militar.

1824 

Por volta de 1820, as saias começaram a alargar-se cada vez mais, até 1870. Como cavalgar de crinolina não era exatamente confortável – e muito perigoso, o volume necessário era obtido por meio de uma segunda saia, engomada, ou várias delas. Ainda assim, acidentes eram frequentes: era uma preocupação constante para a amazona cair e ser arrastada pelo cavalo. Uma curiosidade, nas fotos dos anos 1850-1860, as mulheres em trajes de montaria frequentemente estão vestindo a crinolina. Como já foi dito, não andavam a cavalo com ela: vestiam-na somente para serem fotografadas.

1832 Amazona, por Brullov
Um traje de montaria não era necessariamente escuro.

1858 
Chapéus de montaria eram uma alternativa à cartola.

Rebecca Latimer Felton, nascida em 1835, escreveu sobre os trajes de montaria no livro dela:
Every woman who rode horseback had a riding skirt made of substantial home weaving with a belt but open to the hem.  These riding skirts protected the dresses and were in universal use when my mother and grandmother were young.  After I came along, also a horseback rider until I was seventy years old, I owned once or twice a riding habit, but had my early training with my mother’s riding skirt and sidesaddle.
Toda mulher que andava a cavalo tinha uma saia feita de tecido caseiro, resistente, com um cinto, mas aberta até a barra. Estas saias de montaria protegiam os vestidos e eram usadas universalmente quando a minha mãe e minha avó eram jovens. Depois que cheguei, também uma amazona até os 70 anos de idade, eu tive uma ou duas vezes um traje de montaria, mas tive o meu trinamento inicial com a saia de montaria da minha mãe e sela feminina.

Acerca do treinamento. As meninas novas eram treinadas para montar dos dois lados do cavalo, em vez de somente do tradicional lado esquerdo. Pensava-se que se a menina montasse de um lado só, a sua coluna poderia entortar.

Na época da Guerra Civil (EUA), a saia, que havia atingido o seu volume máximo, era mais comprida que a de um vestido normal (entre 0.3 e 0.5 metro), um pouco mais curta na frente (dessa forma, era mais fácil caminhar). Além disso, sob as saias, as amazonas vestiam calças, ou de corte normal, ou ao estilo turco, do mesmo tecido que a saia.

1857 Killerton, Riding Habits

De “Horses, Mules and Ponies and How to Keep Them”, por Henry Herbert, 1859:
Ladies’ trousers should be of the same material and color as the habit, and if full, flowing like a Turk’s and fastened with an elastic band round the ankle, they will not be distinguished from the skirt. In this costume, which may be made amply warm by the folds of the trousers, plaited like a Highlander’s kilt, -- fastened with an elastic band at the waist, -- a lady can sit down in a manner impossible for one encumbered by two or three short petticoats.
As calças das senhoras devem ser do mesmo material e cor que o traje, e se forem largas, fluindo como as de um turco e presos por uma fita elástica em volta do tornozelo, elas não serão distinguidas da saia. Neste traje, que pode ser feito bem quente pelas pregas das calças, com dobras iguais às de um kilt escocês, - preso com um elástico na cintura, - uma senhora pode sentar-se de uma forma impossível para alguém que usa somente duas ou três saias.

1862

Mais tarde, a silhueta do traje de montaria, acompanhando a moda, tornou-se mais esbelta, em particular devido à influência da imperatriz austríaca Elizabeth, apaixonada por cavalos e absolutamente louca por elegância. Alias, toda manhã ela era “costurada” dentro do traje de montaria, para que este ficasse mais justo e tivesse um caimento perfeito. Como a saia tornou-se muito estreita, para que a mulher pudesse realmente montar, do lado direito a saia alargava-se (para acomodar o joelho), e do outro lado, havia uma cauda extensa, que pudesse cobrir as pernas da amazona. Quando desmontava, a mulher deveria pegar esta cauda com rapidez e elegância, e “prender” a saia excessivamente larga para a moda de então com um fecho especial acima do joelho.

1873 Equestrian Portrait of Mademoiselle Croizette, por Charles Émile Carolus-Duran

1884 Elisabeth de Bavaria, Imperatriz da Austria

1889
Traje de montaria e um vestido especial para andar de bicicleta

Foi Elizabeth que introduziu também a moda de seguir os cães, igualando os direitos das mulheres e dos homens durante a caça: até 1870, isso era considerado indecente, e as mulheres normalmente se limitavam a acompanhar os homens até o início da perseguição.

Alias, aqueles que assumem que as amazonas vitorianas usavam exclusivamente cartolas, enganam-se. Estas eram certamente usadas para ocasiões formais, como caça, por exemplo. Mas no dia-a-dia, muitas amazonas preferiam seus chapéus normais, ou chapéus especiais para andar a cavalo. E nos anos 1890, por exemplo, era considerado pouco apropriado para uma mulher solteira usar cartola, de modo que as jovens usavam, por exemplo, um chapéu-coco.

1891
Uma adolescente, com um chapéu-coco.

Em 1922, Emily Post resumiu em poucas palavras a essência dos trajes de montaria:
A riding habit, no matter what the fashion happens to be, is like a uniform, in that it must be made and worn according to regulations. It must above all be meticulously trig and compact. Nothing must be sticking out a thousandth part of an inch that can be flattened in... Keep the idea of perfect clothes for men in mind, get nothing that the smartest man would not wear, and you can’t go wrong... Correct riding clothes are not fashion but form! Whether coat skirts are long or short, full or plain, and waists wasp-like or square, the above admonitions have held for many decades, and are likely to hold for many more.
Um traje de montaria, não importa o que a moda passa a ser, é como um uniforme, que deve ser feito e usado de acordo com os regulamentos. Deve ser, acima de tudo, meticulosamente ajustado e compacto. Nada que possa ser achatado deve sair para fora a milésima parte de uma polegada... Tenha em mente a ideia da roupa perfeita para os homens, não pegue nada que o homem mais elegante não vestiria, e não poderá dar errado... Trajes de montaria corretos não são moda, mas uniformes! Se as saias são curtas ou longas, cheias ou justas, e as cinturas são de vespa ou como um quadrado, as advertências acima valeram por muitas décadas, e é provável que valerão para muitas mais.

1906 Retrato de Olga Nesterova, por Nesterov

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