06
mai
Preto
Passam séculos, mudam as silhuetas, mas ela permanece: cor do poder e da sabedoria, do protesto e da solidão, do luto e da melancolia, do luxo e da sensibilidade... Enfim, já colocou-se tanto significado no preto, que ele pode expressar qualquer coisa.
Ele já foi vestido de luto e roupa monástica, pequeno vestido Chanel e casaco de couro, manto rendado e uniforme militar, fraque e roupa de ginástica, batom e meias, sapatinho e máscara. Já foi tudo. Inclua aí vestido de noiva.
Alias, se alguém não tiver nenhuma roupa preta, fique a vontade para jogar em mim uns ovos podres.
Mas não vamos olhar as calças sociais nem as blusinhas básicas, e pensar em algo mais divertido.
E começar bem de longe...
Na metade do século 16, na Europa, o preto firmou-se definitivamente como cor do luto. Por outro lado, é a cor usada pelos cientistas e sacerdotes, médicos e mercadores e, coberto de luxuosos bordados e decorado com pedras preciosas, veste os aristocratas. Roupas negras da corte hispânica, véus negros das senhoras, veludo e peles...
No século 17, as holandesas casadas usam vestidos pretos, junto com imensas golas brancas e toucas de renda.
Século 18... Estão na moda tecidos claros, mas chapéus, fitas, máscaras e capas - os famigerados acessórios da era galante - são muitas vezes pretos. E no final do século, durante a Revolução Francesa, os aristocratas da França vestem-se de negro - morre a monarquia, então vamos usar luto!
Começa o séuclo 19, que transformou o preto no uniforme masculino. Um tanto quanto sem graça, mas tem gosto para tudo.
Quem odiava mesmo o preto eram as jovens viuvas mais fúteis. Tais como Scarlett O'Hara de "E o vento levou", que enviuvou aos 17 e descobriu que só poderia usar vestidos pretos simples, e longos e "horríveis" veus negros.
Depois da morte de Albert, a rainha Vitória não tirou o luto até o final da vida (até mesmo nos casamentos dos seus filhos, comparecia em luto), e o preto reinou na Europa: luto completo - vestidos pretos sem enfeites, depois vestidos pretos mais enfeitados, depois só detalhes pretos... Todo um sistema.
Mas o preto não era só a cor do luto.
Balzac descrevia as belas parisienses de preto: "A quem ela se deve, a um anjo ou a um demônio, a elegante suavidade dos seus movimentos, que ondulam o longo manto negro, as rendas, e emanando um perfume suave?"
E até mesmo as roupas de uma viúva não precisavam ser algo lúgebre: "A visitante estava inteira de preto, da cabeça até os pequeninos sapatinhos de cetim. Pérolas negras decoravam o corpete do vestido dela e desciam, em fileiras cada vez mais dispersas, para a saia. Um veu descia em cascata até os saltos. O outro, aquele cuja finalidade era cobrir o rosto, estava jogado para trás, emoldurando de forma encantadora o rosto pálido com nuvens de luto semi-transparentes".
Agora, no que diz respeito a roupas de baixo, preto é a cor da sensualidade. Meias e lingerie pretas...