Vamos
voltar uns 20 anos no tempo, para 1872. Numa bela tarde de maio, Sophie, mãe do
imperador, foi ao teatro, e quando voltou ao palácio, saiu para refrescar-se
numa varanda (por causa da iluminação a gás, todos os ambientes fechados eram
muito quentes). Ali, ela adormeceu e passou a noite, e de manhã teve febre.
Depois de uma longa agonia, Sophie faleceu no dia 28 de maio de 1872. Muitos
habitantes de Viena sussurravam que a verdadeira imperatriz havia morrido. Não
podiam estar mais perto da verdade, pois Elisabeth não gostava nem um pouco da
capital. Segundo ela, as únicas coisas boas em Viena eram os cavalos dela e a
dama de honra Ida Ferenszy.
Ida Ferenszy
Apesar de
Sophie não poder mais encher o saco, ela teve tempo suficiente para arruinar o
relacionamento entre Elisabeth e Franz Joseph. Adicione a isso os interesses
políticos contrários e a história da gonorréia, e torna-se óbvio o porque de a
imperatriz preferir passar o máximo de tempo possível longe do lar. O pai dela
era um “pai de fim de semana”, e a própria Elisabeth via os filhos com menor
freqüência ainda. Onde ela não esteve nesses anos! Riviera, Baden-Baden,
Londres, Atenas, Smirna, Corfu, Amsterdã, Roma, Normandia… Ela rodou a Europa
inteira, e mais de uma vez. Suas viagens lembravam mais uma fuga do que um
passatempo agradável. Ao chegar num lugar novo, se jogava de cabeça em
aventuras. Na Inglaterra, seu passatempo favorito era caçar raposas, o que não
é surpreendente, levando em conta que Elisabeth era uma exímia amazona. Ela até
mesmo teve aulas com uma artista de circo, aprendendo vários truques eqüestres complexos.
Preferindo passeios a cavalo, Elisabeth até mesmo ignorou convites da rainha
Vitória. Vitória a convidou para jantar duas vezes, e duas vezes Sisi respondeu
que estava ocupada. Depois, nas melhores tradições dos contos de fada, Vitória
se recusou a receber a colega austríaca quando ela finalmente teve tempo livre.
“Se eu tivesse tão más maneiras”, escreveu Elisabeth sobre Vitória numa carta
para o marido.

Alias, Sisi
tinha horror de mulheres gordas, e transmitiu-o a sua filha mais nova, que se
assustou forma bastante escandalosa ao ser apresentada a rainha Vitória.
Alias,
quando Elisabeth visitou a Inglaterra, recebeu por guia um jovem oficial,
Georges Middleton. Orgulhoso e independente, ele no começo tentou ignorar o
fato de que era um companheiro quase inseparável da imperatriz da Áustria. Essa
atitude divertiu Sisi, que usou todo o seu charme para encantar o rapaz. Então,
ela tinha 39 e ele 30, e o sucesso não poderia deixar de lisonjeá-la.
Obviamente, Elisabeth tinha a cara de pau para mencionar o oficial em todas as
cartas que escrevia para o marido, mas Franz Joseph não caiu na provocação. Mas
quando Rudolf chegou a Londres, ele ostensivamente ficava de constas para o
capitão Middleton em todas as recepções, deixando bem clara a sua opinião sobre
tudo isso. A relação entre Georges Middleton durou seis anos. Não se sabe se
foram ou não amantes, é possível que seja somente uma atração platônica baseada
em interesses comuns: cavalos e caça.

Durante
toda a vida, Elisabeth foi louca por sua aparência. Quando as crinolinas
começaram a ceder lugar a bustles, Sisi foi a primeira a optar por uma silhueta
mais esbelta. Chegava ao extremo de não usar anáguas, para que a roupa ficasse
menos “cheia” e alguns dos seus vestidos eram literalmente costurados nela,
para ajustar-se melhor.
Suas dietas
eram realmente extremas, e em alguns dias, a sua alimentação limitava-se a seis
copos de leite por dia. Ela gostava de doces, mas raramente os comia. É fácil
imaginar como a irritava um certo apaixonado, um conde italiano, que em seu
testamento escreveu que Elisabeth receberia panetones regularmente (você está
de dieta, e a geladeira está entupida de bolos, pesadelo dos pesadelos). Alias,
jantar com ela deveria ser um inferno, já que ela não comia quase nada, e os
pratos durante o jantar são trocados de acordo com o apetite da dona de casa.
Buscando
preservar a juventude, a imperatriz tomava banhos em azeite morno, enrolava as
coxas em tecido umedecido em vinagre ao dormir para manter-se esbelta, dormia
numa cama bem dura e sem travesseiro. Além disso, Elisabeth usava máscaras
faciais de framboesa, e também de carne crua.
Os cuidados
diários com o cabelo levavam pelo menos três horas. Este era tão longo e pesado
que ela muitas vezes reclamava que o peso das tranças e dos enfeites dava-lhe
dores de cabeça. Sua cabeleireira, Fanny Feifalik, havia antes sido
cabeleireira do Burgtheater de Viena, onde foi encontrada por Sisi. Responsável
pelos penteados elaborados, ela sempre acompanhava a imperatriz nas suas
viagens. Feifalik era proibida de usar anéis e deveria colocar luvas, e depois
de horas penteando e fazendo tranças, todos os cabelos que caíram eram
inspecionados pela imperatriz. Quando precisava lavar o cabelo então, todos os
compromissos do dia eram desmarcados.
Fanny
Elisabeth
usava as horas que passava sendo penteada para aprender línguas: falava
fluentemente inglês e francês, estudava também húngaro e grego.
Todos os
castelos em que vivia eram equipados com aparelhos de ginástica. Também adorava
passeios a pé, podendo andar até dez horas seguidas, enquanto as damas de honra
exaustas arrastavam-se atrás. Às vezes, as suas pernas inchavam, mas ela
ignorava os conselhos dos médicos e vivia do jeito que queria.
Desde a
infância, Sisi escrevia poemas, alguns dos quais sobreviveram até hoje (e
outros foram destruídos em acessos de autocrítica). Sua peça favorita era o
“Sonho de uma noite de verão” de Shakespeare, e os seus quartos eram decorados
com quadros retratando Titânia acariciando a cabeça de um burro. Alias, o
próprio tema da insanidade atraía Elisabeth – talvez porque a sua família era
cheia de loucos e excêntricos, por exemplo, Ludwig II ou seu irmão Otto (que
pulou sobre um caixão junto com Rudolf, fora as outras façanhas, que incluíam
comparecer totalmente despido em um dos mais conhecidos restaurantes de Viena).
A imperatriz visitava clínicas psiquiátricas na Áustria e no exterior, e um dia
pediu uma inteiramente equipada para o marido como presente de Natal.
Como Franz
Joseph passava o tempo enquanto sua mulher viajava? A vida dele estava
submetida às regras da corte, que não deixavam muito espaço para emoções. Os
filhos cresciam e distanciavam-se do pai (se é que em algum momento foram
próximos). Franz Joseph constantemente pedia para esposa que voltasse, mas ela
nunca voltava, e os seus pedidos por fim se transformaram em resmungos de
velho. Não podemos dizer que Elisabeth não percebia a solidão do imperador. Não
só percebia, como tomou medidas para que ele pudesse passar sem ela, mais
exatamente arrumou-lhe uma amante.
Katharina Schratt
Esta amante
tornou-se única e insubstituível para Franz Joseph, e era praticamente uma
segunda esposa. O nome dela era Katharina Schratt, ela era uma atriz, não muito
talentosa, mas bastante bonitinha. Além disso, Katharina era uma boa moça,
excelente cozinheira, ótima dona de casa, e uma católica devota (o que não a
impediu de passar alegremente o tempo com sua Majestade Apostólica durante
muitos anos). Além disso, ela gostava de puzzles. Katharina Schratt conheceu o
imperador em 1885. Então, ela havia se casado uma vez e tinha um filho.
Catherine tinha 32, Franz Joseph tinha 55. O imperador encomendou o retrato
dela a um pintor em voga, e durante o trabalho entrou na oficina com Elisabeth.
Diz-se que as duas mulheres tiveram uma boa conversa, e a imperatriz deu uma
indireta: seria bom que Katharina trabalhasse naquilo em que ela própria não
foi bem sucedida. Mais exatamente, apoiar o imperador e enchê-lo de carinho e
atenção. Schratt não tinha nada contra. Franz Joseph e Katharina trocavam
cartas melosas e passeavam juntos. Elisabeth estava contente por não ter
ninguém pegando no pé dela: o imperador finalmente arrumou uma mulher que vai
trazer-lhe flores frescas, ou montar puzzles com ele, que seja. As suas
relações com Katharina eram bem amistosas. As duas até mesmo faziam dieta
juntas. Um dia, o filho de 12 anos de Katharina recebeu uma carta anônima
cobrindo a mãe do menino de lama. Obviamente, ele ficou triste, mas Elisabeth o
convidou para o palácio imperial e, enquanto Franz Joseph e Katharina
passeavam, explicou-lhe que somente uma pessoa muito má poderia escrever uma
carta dessas, pois na verdade a sua mãe é muito boa. Curiosamente, Sisi nunca
deu tanta bola para os próprios filhos e netos.

Katharina Schratt
A relação
do imperador com Katharina Schratt continuou por muitos anos. Katharina cuidava
de Franz Joseph como uma esposa dedicada. Cozinhava para ela. Comprava-lhe
cigarros caros, dos quais ele gostava, mas com os quais não queria desperdiçar
dinheiro. Quando ele enfrentou problemas políticos, Katharina encomendou um
bote com trevo de quatro folhas, para trazer-lhe sorte. Foi Katharina que
consolou Franz Joseph depois do suicídio de Rudolf, e foi ela que esteve ao
lado dele quando... Mas enfim, não vamos nos adiantar.
Katharina Schratt
Os anos
passavam, nuvens juntavam-se no horizonte dos Habsburgos, e não havia nada que
pudesse afastar a tempestade que se aproximava. Nem mesmo trevo de quatro
folhas.
Katharina Schratt