25
mar
O grande amigo branco
Infelizmente, alguns temas não costumam ser abordados. Sem
contar que as pessoas normalmente não descrevem as suas ações diárias. Mas
ainda assim, sabemos algumas coisas. Pelo menos, os nossos antepassados não
andavam cagando pelos cantos.
Enfim, é um post complicado, menores, pessoas nervosas e
inocentes, evitem. Se o conteúdo abaixo os perturbou, a culpa não é minha.
Na idade média, os dejetos eram simplesmente despejados na
rua se a pessoa fazia as necessidades num urinol. Ou poderia correr até a rua mesmo.
Nas cidades, surgiram latrinas “embutidas” nas muralhas, de modo que os
produtos do esforço coletivo dos seus habitantes escorressem para fora. De
qualquer forma, apesar de todos os esforços, as cidades eram completamente
imundas.
O exemplo disso é uma lei parisiense do século 11, proibindo
aos cidadãos despejar o conteúdo dos urinóis dos andares superiores das casas
para não incomodar os transeuntes. Obviamente, não era cumprida. O problema não
estava restrito aos simples. Assim, um viajante descreve o Louvre, em 1670, de
forma bem pouco apetitosa, apontando para a grande quantidade de montinhos.
Vocês sabem do que, né. Era de se esperar, pois o palácio não tinha um único
banheiro. Muitas vezes, o rei e sua corte simplesmente subiam nos parapeitos das
janelas, colocavam as bundas para fora e...
Não era raro, ao inquirir, em uma hospedaria, onde ficava o
banheiro, receber a resposta: “Em qualquer lugar que lhe for cômodo!”
Os urinóis, e o método de uso deles, pouco mudaram nos
últimos 200 anos. Mas, no passado, eram bem mais difundidos. Cá entre nos, quem
nunca parou um instante para pensar como as mulheres faziam para ir ao banheiro
com aquelas saias gigantes? Mas a criatividade humana não tem limites. No
século 16, havia na França um certo Bourdaloue, pastor. Ele poderia falar por
horas e horas a fio. Para não se distrair dos seus sermões, as senhoras levavam
com elas os potinhos “bourdaloue”, de formato bem anatômico. As criadas
enfiavam-nos por baixo das saias das senhoras. Levando em conta que as roupas
de baixo da época não tinham uma costura entre as pernas (e continuaram sem até
quase o final do século 18), era um procedimento bem simples e prático.
Séc. 16, modelo masculino.
Mas enfim, os urinóis de todas as formas e cores eram bem
populares, afinal ninguém queria ficar correndo para lá e para cá na hora do
aperto.
Hoje em dia, muitos dos “bourdaloue” são usados para servir
comida. Enfim, observe as ilustrações e, da próxima vez que for visitar alguém
metido a besta que se gaba das porcelanas herdadas da tataravó, denuncie o
engano em pleno almoço. Mas tudo bem, é um engano perdoável, são mesmo
parecidos.
Se você ver um negócio assim em cima da mesa...
O urinol tinha uma “alça” para carregá-lo, e uma tampa. Ele
normalmente ficava guardado sob a cama e, de manhã, a criada que limpava o
quarto era encarregada de esvaziá-lo.
Urinois eram dados de presente e evinham com inscrições encorajadoras.
Já em 1820 – ou mesmo antes – as pessoas sabiam que não é
legal fazer xixi no urinol do amigo. Principalmente se o amigo tivesse qualquer
doença que poderia ser confundida com sífilis.
No século 17, eram bastante populares as poltronas de
retiro, mas acabaram caindo em desuso antes da era vitoriana. Ainda assim,
posto algumas imagens, conheço várias pessoas que lamentam ter que se afastar
do computador por um instante que seja, e espero que curtam a idéia.
Finalmente, também surgiram recintos especiais para esse
fim, muitos deles conectados diretamente a fossas. Ficavam, no início, próximas
a entrada. Assim, um visitante poderia, logo ao chegar, aliviar-se e se arrumar
sem perturbar os moradores da casa. Mas o hall de entrada deveria feder bastante.
Esta instalação poderia também ficar fora de casa, excelente no que diz
respeito a higiene, mas bastante incomodo no inverno.
De resto, era bastante natural fazer as suas necessidades em
qualquer espaço público não muito movimentado. De modo que você não deveria se
surpreender ou ficar muito ultrajado se encontrasse alguma pessoa agachada no
portão da sua casa.
Privadas semelhantes às de hoje começaram a surgir na metade
do século 18. Antes disso, o pessoal valia-se dos métodos descritos acima. Mas
mesmo depois da sua invenção, as privadas eram muitas vezes instalados em
cubículos fora de casa, ou, então, a instalação moderna era somente para o uso
dos donos da casa, e os criados deveriam se virar.
Aí, os urinóis tiveram que se aposentar.
Na verdade, a primeira privada foi inventada em 1596, mas
foi desaprovada pela rainha Elisabeth I e a moda não pegou.
O surgimento das privadas do tipo moderno foi favorecido
pelo aperfeiçoamento das válvulas e dos sistemas de descarga. As primeiras
provadas eram bem pouco eficientes justamente por causa desses dois fatores.
Vamos observar o esquema do primeiro modelo: na parte inferior, a água era
acumulada em um reservatório de cobre, chamado de D-trap, devido a seu formato.
O contêiner com excrementos virava, despejando-os no reservatório, e depois era
necessário jogar bastante água, para que esta leve tudo cano abaixo. O grande
problema aí era o gasto de água e, como o consumo desta já era controlado, o
fedor era insuportável. Assim, o banheiro ficava no canto mais remoto da casa,
para não incomodar os moradores.
Depois, foi desenvolvida a privada com sifão (a bagaça em
forma de S), bem mais eficiente nesse sentido. Em 1860-70, a empresa de Thomas
Crapper era a principal fornecedora de privadas (mas o verbo to crap, cagar,
surgiu bem antes disso, e não tem nenhuma relação com este respeitável senhor).
Sr. Crapper.
As privadas finalmente livraram-se do mau cheiro, e
começaram a ganhar espaço. O único incômodo era o barulho da descarga, tão alto
que poderia ser ouvido nos cômodos vizinhos, perturbando os vitorianos,
obcecados com decência. De alguma forma, isso me faz lembrar as mulheres
japonesas, que apertam a descarga durante todo o tempo em que fazem as suas
necessidades, para que ninguém ouça o barulho do xixi.
Inicialmente, as privadas eram acomodadas em caixas de
madeira. Mas, a partir do final da década de 70, começou a moda das cores e
formas, do estilo império ao renascentista, com ricas decorações e pinturas.
Mas, apesar da aparência dos vasos ser impressionante, para se limpar, era
usado qualquer papel que estivesse a mão. Jornais, envelopes, pacotes de papel
eram cortados, presos a um barbante e pendurados no banheiro.
Além de banheiros privativos, disseminaram-se os públicos.
Por exemplo, durante a Exposição de 1851, os visitantes poderiam utilizar
banheiros com privadas modernas – conferidas por quase um milhão de pessoas.
Banheiros femininos eram mais raros que masculinos, temia-se que eles pudessem
se tornar pontos de reunião de prostitutas.