O grande amigo branco  

Posted by Moriel in , , ,


Infelizmente, alguns temas não costumam ser abordados. Sem contar que as pessoas normalmente não descrevem as suas ações diárias. Mas ainda assim, sabemos algumas coisas. Pelo menos, os nossos antepassados não andavam cagando pelos cantos.

Enfim, é um post complicado, menores, pessoas nervosas e inocentes, evitem. Se o conteúdo abaixo os perturbou, a culpa não é minha.

Na idade média, os dejetos eram simplesmente despejados na rua se a pessoa fazia as necessidades num urinol. Ou poderia correr até a rua mesmo. Nas cidades, surgiram latrinas “embutidas” nas muralhas, de modo que os produtos do esforço coletivo dos seus habitantes escorressem para fora. De qualquer forma, apesar de todos os esforços, as cidades eram completamente imundas.

O exemplo disso é uma lei parisiense do século 11, proibindo aos cidadãos despejar o conteúdo dos urinóis dos andares superiores das casas para não incomodar os transeuntes. Obviamente, não era cumprida. O problema não estava restrito aos simples. Assim, um viajante descreve o Louvre, em 1670, de forma bem pouco apetitosa, apontando para a grande quantidade de montinhos. Vocês sabem do que, né. Era de se esperar, pois o palácio não tinha um único banheiro. Muitas vezes, o rei e sua corte simplesmente subiam nos parapeitos das janelas, colocavam as bundas para fora e...

Não era raro, ao inquirir, em uma hospedaria, onde ficava o banheiro, receber a resposta: “Em qualquer lugar que lhe for cômodo!”

 
Os urinóis, e o método de uso deles, pouco mudaram nos últimos 200 anos. Mas, no passado, eram bem mais difundidos. Cá entre nos, quem nunca parou um instante para pensar como as mulheres faziam para ir ao banheiro com aquelas saias gigantes? Mas a criatividade humana não tem limites. No século 16, havia na França um certo Bourdaloue, pastor. Ele poderia falar por horas e horas a fio. Para não se distrair dos seus sermões, as senhoras levavam com elas os potinhos “bourdaloue”, de formato bem anatômico. As criadas enfiavam-nos por baixo das saias das senhoras. Levando em conta que as roupas de baixo da época não tinham uma costura entre as pernas (e continuaram sem até quase o final do século 18), era um procedimento bem simples e prático.

 Séc. 16, modelo masculino.

Mas enfim, os urinóis de todas as formas e cores eram bem populares, afinal ninguém queria ficar correndo para lá e para cá na hora do aperto.


Hoje em dia, muitos dos “bourdaloue” são usados para servir comida. Enfim, observe as ilustrações e, da próxima vez que for visitar alguém metido a besta que se gaba das porcelanas herdadas da tataravó, denuncie o engano em pleno almoço. Mas tudo bem, é um engano perdoável, são mesmo parecidos.

 Se você ver um negócio assim em cima da mesa...
 
O urinol tinha uma “alça” para carregá-lo, e uma tampa. Ele normalmente ficava guardado sob a cama e, de manhã, a criada que limpava o quarto era encarregada de esvaziá-lo.

 Urinois eram dados de presente e evinham com inscrições encorajadoras.

Já em 1820 – ou mesmo antes – as pessoas sabiam que não é legal fazer xixi no urinol do amigo. Principalmente se o amigo tivesse qualquer doença que poderia ser confundida com sífilis.

No século 17, eram bastante populares as poltronas de retiro, mas acabaram caindo em desuso antes da era vitoriana. Ainda assim, posto algumas imagens, conheço várias pessoas que lamentam ter que se afastar do computador por um instante que seja, e espero que curtam a idéia.


Finalmente, também surgiram recintos especiais para esse fim, muitos deles conectados diretamente a fossas. Ficavam, no início, próximas a entrada. Assim, um visitante poderia, logo ao chegar, aliviar-se e se arrumar sem perturbar os moradores da casa. Mas o hall de entrada deveria feder bastante. Esta instalação poderia também ficar fora de casa, excelente no que diz respeito a higiene, mas bastante incomodo no inverno.

De resto, era bastante natural fazer as suas necessidades em qualquer espaço público não muito movimentado. De modo que você não deveria se surpreender ou ficar muito ultrajado se encontrasse alguma pessoa agachada no portão da sua casa.

Privadas semelhantes às de hoje começaram a surgir na metade do século 18. Antes disso, o pessoal valia-se dos métodos descritos acima. Mas mesmo depois da sua invenção, as privadas eram muitas vezes instalados em cubículos fora de casa, ou, então, a instalação moderna era somente para o uso dos donos da casa, e os criados deveriam se virar.

Aí, os urinóis tiveram que se aposentar. 


Na verdade, a primeira privada foi inventada em 1596, mas foi desaprovada pela rainha Elisabeth I e a moda não pegou.


O surgimento das privadas do tipo moderno foi favorecido pelo aperfeiçoamento das válvulas e dos sistemas de descarga. As primeiras provadas eram bem pouco eficientes justamente por causa desses dois fatores. Vamos observar o esquema do primeiro modelo: na parte inferior, a água era acumulada em um reservatório de cobre, chamado de D-trap, devido a seu formato. O contêiner com excrementos virava, despejando-os no reservatório, e depois era necessário jogar bastante água, para que esta leve tudo cano abaixo. O grande problema aí era o gasto de água e, como o consumo desta já era controlado, o fedor era insuportável. Assim, o banheiro ficava no canto mais remoto da casa, para não incomodar os moradores. 


Depois, foi desenvolvida a privada com sifão (a bagaça em forma de S), bem mais eficiente nesse sentido. Em 1860-70, a empresa de Thomas Crapper era a principal fornecedora de privadas (mas o verbo to crap, cagar, surgiu bem antes disso, e não tem nenhuma relação com este respeitável senhor).

 
Sr. Crapper.

As privadas finalmente livraram-se do mau cheiro, e começaram a ganhar espaço. O único incômodo era o barulho da descarga, tão alto que poderia ser ouvido nos cômodos vizinhos, perturbando os vitorianos, obcecados com decência. De alguma forma, isso me faz lembrar as mulheres japonesas, que apertam a descarga durante todo o tempo em que fazem as suas necessidades, para que ninguém ouça o barulho do xixi.



Inicialmente, as privadas eram acomodadas em caixas de madeira. Mas, a partir do final da década de 70, começou a moda das cores e formas, do estilo império ao renascentista, com ricas decorações e pinturas. Mas, apesar da aparência dos vasos ser impressionante, para se limpar, era usado qualquer papel que estivesse a mão. Jornais, envelopes, pacotes de papel eram cortados, presos a um barbante e pendurados no banheiro.
 
Além de banheiros privativos, disseminaram-se os públicos. Por exemplo, durante a Exposição de 1851, os visitantes poderiam utilizar banheiros com privadas modernas – conferidas por quase um milhão de pessoas. Banheiros femininos eram mais raros que masculinos, temia-se que eles pudessem se tornar pontos de reunião de prostitutas.



This entry was posted at domingo, março 25, 2012 and is filed under , , , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

4 comments

Postagem interessante, de um assunto quase velado...
Tanto tempo se passou, tanta mudança aconteceu (para melhor, é claro), mas ainda encontramos gente que parece continuar vivendo naqueles tempos.
Bjs.

26 de março de 2012 21:44

Yeps... Espere só chegar em outras coisas, tipo banheiras e afins. Bastante dramático também.

Tá bom que as privadas são lindas =) Se eu tivesse uma dessas, botava no meio da sala e enchia de flores.

2 de abril de 2012 09:15

Também gostei dessas floridas...
Bjs.

4 de abril de 2012 11:29

Muito legal o post, são assuntos de dia-a-dia da época que passa despercebido. Adorei o post!

4 de abril de 2012 15:06

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